14 dezembro 2005

Reason[ing]

De que se trata isto ou aquilo, que por aqui escrevo, pergunta-me você, caro leitor, enquanto eu, dou por mim a escrever algo que, infelizmente, você, caro leitor, depois tenta imaginar, e acreditar ser algo sobre mim?

Como poderá, você, caro leitor, pensar que percebeu ou tentar sequer pensar que percebeu algo, e consequentemente, procurar uma razão para aquilo que aqui lê, quando toda a inspiração, que por aqui atravessou, e que aqui ficou transformada, foi também ela própria, editada, tratada e modificada, por palavras, por vezes mais ou menos vastas, do que aquelas que você esperava alcançar ou encontrar, nisto que você agora lê?

Será que deu pelos ajustes, e desajustes, que ao longo do seu tempo de vida, este e aquele texto foi sofrendo ou não sofrendo, aquando de cada revisão, nele imposta, e ao qual eu fui acrescentando, alterando e removendo palavras e sentidos, mais ou menos bruscos, podendo mesmo ter-lhe alterado significativamente o seu sentido?

Não será praticamente tudo o que você, caro leitor, aqui lê, neste desorganizado e indiferenciado, espaço virtual, amontoado de páginas e textos, postados sem qualquer tratamento ou sentimento, tratar-se apenas de algo que me meti a escrever, pura e simplesmente, por que me apetecia escrever?

Então, como ousará você, caro leitor, atravessar mais uma vez, uma das minhas colheitas, à procura de algo que eu tendo e teimo a não plantar, e, mesmo assim, ainda me perguntar ou tentar justificar aquilo que eu escrevo, à procura de uma razão ou sentido?

Que sentido, terão estes e aqueles pequenos excertos, de uma mente, um pouco menos lúcida, quando, sem razão aparente, e sem qualquer pré-aviso, começam a dar origem a “certos e determinados” sentidos, que senão o próprio sentido de criar escrita? Porque razão tenderá, este e aquele pequeno excerto de uma mente menos lúcida dar origem a questões, acerca do seu porquê, da sua causa – efeito, e da sua razão?

Não será isso apenas uma interpretação, que a sua mente, caro leitor, através de sentidos e conjugações por si, e por si só feitas, dado origem a uma nova história, dentro desses próprios excertos? Não será essa interpretação, uma vertente, de uma mente ainda menos lúcida, do que aquela que aqui encontra, à procura de uma razão não só, para tudo aquilo que lhe é dado a partilhar, como também, para tudo aquilo que essa mente menos lúcida começa a criar através de um conjunto de palavras mal interpretadas?

Será que a razão estará sempre presente em tudo aquilo que tentamos criar transmitir, ou partilhar? Será a razão, um dado adquirido e obrigatório, para tudo o que se vê, ou tudo o que se cria? Não será a falta de uma razão, também ela própria uma razão, para aquilo que tento transmitir e escrever?

E a razão… Consequentemente temos a Razão Humana. Sim porque o Ser Humano, como
nos tratamos, tem sempre uma razão, para justificar todo e qualquer acto, ou pelo menos assim somos intimidados a pensar e a ser… Mas isso, você, caro leitor, já não tem que interpretar aqui, neste espaço…

29 novembro 2005

Aos Interessados e Endereçados,

Aos Interessados e Endereçados,

Tal como o Tempo vai e vem, e a inspiração vem, atravessa-nos, e vai, também a arte, neste caso a escrita, vem e vai…Será assim tão complicado, estarmos sempre a adiantar e a evoluir, a nossa forma de ver esta arte, e também, claro, de a fazer? Não será a escrita, uma arte banal, onde cada um de nós, à sua própria maneira, e com o seu próprio intuito, junta um conjunto de ideias e imagens, palavras e sentimentos, que nos atravessam a mente, é verdade, a uma velocidade estrondosa, que até parece difícil de acompanhar?
Então, porque pura e simplesmente, esperar calma e descontraidamente, pela arte, escrita, dos outros? Porque não, nós próprios, juntarmo-nos também a ela, seja ela agradável, triste, boa, má, crítica, elogio, sentimento, arrependimento… E tentar, nem que seja tentar, juntar meia dúzia de palavras, com alguns sentimentos, e uma ideia que nos passe pela cabeça, e escreve-la, transmiti-la, e criar, também nós, algo tão imortal, como a própria escrita?...
Um desinteressado.

Passageiro(a)

«Com a viagem a prosseguir, o passageiro, já sentado calmamente, no seu devido lugar, mede, descontraidamente, mas no entanto fixamente, as medidas, a alguém, que, aparenta ser ainda jovem, não mais de 27 anos, e com um olhar bem vivo, e bem claro, que parece transparecer alegria e vida. Ela, distraída, vaguei pelos seus pensamentos, pensa o passageiro, mas de facto não poderá dizer com tanta certeza, pois a única coisa que nota, é que ela e o seu olhar, parecem viajar para o além, para o infinito, enquanto os seus ouvidos, pequenos, redondos, e bem formados, ouvem, ou pelo menos, fingem ouvir, algo que toca, no instrumento, que ela traz consigo. Enquanto isso o passageiro, continua, à sua maneira, a prosseguir as medidas da sua vizinha de bordo, que cada vez mais lhe parece, tão ou mais bela e atraente do que o seu olhar e a sua leveza aparentavam transparecer.
Ela, a passageira, não consegue acreditar, onde foi o lugar dela calhar. Tinha visto o mesmo passageiro, que agora se sentava, quase, de frente para ela, ainda dentro do terminal, e tinha, ela também, lhe tirado as medidas, enquanto ele aparentava, enquanto tomava o pequeno-almoço, apreciar a vista matinal, da janela, do café, do terminal. O olhar dele parecera, meio apreciador da paisagem, e ao mesmo tempo, meio desaparecido por entre a paisagem, pelo facto de estar a partir, reparara bem nisso, mas, também ela, não chegara a uma conclusão, que lhe permitisse saber do que seria.Entretanto entrara e sentara-se no transporte, também ela, no seu devido lugar, e vira reparar que o passageiro se sentara bem perto dela. Pensou, vagamente, em ir-se aventurar em busca de uma conversa, ou de uma companhia para a viagem, mas como ele parecia ainda estar ocupado com sua bagagem, e como a viagem ainda era longa, decidira ouvir alguma coisa, e arejar a sua mente, para depois, talvez depois, passar à frente.»

Tempo

«Esse teu ar, juvenil, mas no entanto maduro, sério, mas alegre, abriu uma grande fossa dentro de mim mesmo, e desde esse momento, que, cada olhar, que os meus olhos tendem a cruzar contigo, cavam e penetram ainda mais no interior desta escura fossa que me abriste.Vejo-te e observo-te, e tal é a força que cresce dentro de mim para avançar e lançar-me a esse teu ar, ingénuo, mas ao mesmo tempo sabedor, que fico completamente imóvel, enquanto tu, tal é a força desse teu sorriso, que parece ser sempre diferente e maior, diferente e melhor, mas sempre aliciante e encantador, caminhas lenta e normalmente por entre o teu longo e belo paraíso…»
in Estórias de um Romancista,
1896

Olhar Indiscreto

«E quando esse teu olhar captou inesperadamente o meu olhar, que viaja descontraidamente pelo mundo em meu redor, dentro deste mundo que parecia girar em meu torno, houve algo teu que ficou. Houve algo teu que ficou, que não só ficou comigo, como também, parece ter-se apoderado, sem aviso, de tudo aquilo que eu tinha dentro deste meu pequeno planeta, e sem aviso, esse teu olhar ficou gravado por entre cada canto das minhas pequenas paredes, e camadas de tecidos, que perfazem o meu EU.»

Descrever

«(...)

aquilo que eu Vivi
aquilo que eu Senti
se algum dia fosse
descrever ou tentar explicar
de tal forma que tu fosses
sequer capaz de entender
deixava de ser aquele
momento único e só
que eu Vivi,
e que eu Senti

(...)»
Alguém,
em 1675

Excertos de um Soldado II

(…) «Em sentido, na formatura, e de arma em punho, o soldado, solitário no meio do seu próprio grupo, observa atentamente o infinito, que a sua mente descreve e observa, discretamente, enquanto o capitão, na sua pose habitual, comunica tranquilamente ao seu esquadrão, as suas tarefas, para esse dia, que tão cedo teimava a nascer.Entretanto, do outro lado do quartel, faziam-se ouvir os gritos da oposição. Não eram uns gritos quais queres, mas sim uns gritos mecanizados, produzidos, por algo a que vulgarmente se chama de armas. Armas, tiros, bombas, explosões, isso era o que ouvia nessa manhã, tal como em muitas outras, para variar um bocado o monótono dia que se previa, vir dia após dia. Enquanto isso, o soldado, solitário, e em sentido, teimava em vacilar por entre o seu infinito, e pensava em quanto sentia a falta de tudo aquilo que tomara como garantido, durante estes últimos anos todos, mas que agora pareciam cada vez mais longe, e cada vez menos seu. Em sentido, ele sentia, aqueles outros sentimentos, opostos, aos que lhe tinham sido impostos, nesta fase da sua vida, que, também ela lhe tinha sido imposta.» (…)

Excertos de um Soldado I

(...) «andando por vezes perdido,o soldado mostra-se resignadoà sua missão enquanto, o senhor capitão, aproveita o caféda manhã e lê calmamente o jornal do dia.
ao mesmo tempo o Coronel, almoça,algures, com uns velhos amigos, e por entre copos e sorrisos relembrame recordam os velhos tempos, e tentam passar assim o seu dia» (...)

25 março 2005

Tempo Que Voa Sem Escrita

Como será que a escrita nos inspira?
E Como será que ela nos deixa?

Como sinto sede,
sede de escrever também sinto,
mas a verdade é que ultimamente,
não tenho tido sede,
nem tão pouco tenho te saciado...

Porque será que assim o é,
Perguntas caro leitor? E eu,
Simplesmente te digo,
Que a Escrita Voa,
E ora Vem, ora Vai,
E sem mais nem menos,
Agora pausa! Para qualquer dia,
Me invadir, e Me descarregar,
Aqui ou naquele velho Caderno
que um dia hei-de publicar...