17 março 2007

Viagem em Viagem

Estamos em Março, e a Primavera está mesmo à porta, mas no entanto, o tempo, esse tempo, parece já estar a tornar-se Verão. Está um calor imenso, e um Sol ainda maior. O Sol, forte, está lá no alto, a aquecer-nos a alma, e os corpos, e eu, estou aqui sentado, no meu lugar do comboio. Não consigo para de pensar no Verão. Olho pela janela fora, e mesmo com o ar fresco, do ar condicionado, consigo sentir, o calor, tremendo, que se faz sentir, lá fora. Consigo, por breves momentos, ao fechar os olhos, sentir aquela típica brisa do mar, a penetrar-se pelos meus cabelos, e a refrescar-me a cara. Estou de pé, a bombordo, e observo o longínquo mar, no horizonte. Inspiro fundo, e consigo transportar-me até à praia, onde sentado na areia, observo as rebentações das ondas, ao ritmo de uma suave melodia oceânica. Sinto o mar, o sal, e a arreia a entranhar-se pelas minhas pernas, e a perder-se por entre os dedos das minhas mãos, que a vão acariciando suavemente. Nestes escassos segundos, em que consigo, literalmente, viajar até ao paraíso, estou tentado em ir dar um mergulho, mas antes que me consiga levantar da areia, para fazer a minha breve caminhada até ao mar, aparece-me o revisor, o pica. O Pica? Que fará o pica, nesta minha praia, penso para comigo mesmo. Tento procurar uma razão, para tal, mas logo, deixo-me disso, visto, que estou de volta ao meu lugar, à janela do comboio. Encontra-se à minha frente, e repete, novamente, as boas tardes, e pede-me o título de transporte. Está com pressa. Com pressa! Penso que terá algo mais importante para fazer, ou algures para ir, mas também, não poderá ir muito longe, pelo menos, não mais que as carruagens do comboio. Observa atentamente o passe, e tenta em breves segundos, fazer uma comparação, entre a fotografia digitalizada, e desactualizada, do passe, e a pessoa que se encontra à sua frente, e com um aceno, confere que somos a mesma. E, na sua rotina, de passageiro em passageiro, segue a sua caminhada fora, carruagem dentro. Suspiro. Tento regressar à minha praia, e ver se ela ainda lá se encontra, e se continua tão acolhedora com estava. Fecho os olhos. Inspiro. Expiro. Fecho os olhos, novamente, e tento seguir a mesma viagem, atravessando o rio até à praia. Inspiro novamente, e tento, mais uma vez, recriar, grão a grão, a minha bela praia. Nada. Nada. Tento nadar nestes meus pensamentos, e remando, contra a maré de pensamentos, que me afluem ao cérebro, tento, em vão, voltar ao paraíso, onde me encontrava. Vazio. A praia parece ter-me desertado, ou fugido, para outro passageiro, que agora sorri, e se imagina nela. Fecho, novamente, os olhos, e espero que algo me capte, e me transporte, novamente, para fora desta carruagem. Tento concentrar-me em algo, que me capte minimamente o interesse, mas a única coisa que consigo agora ver, com os meus olhos fechados, é uma luz, que começa a cegar-me a visão. A escuridão, em que me encontrava, começa a iluminar-se cada vez mais, até que me faz abrir os olhos. O comboio encontra-se a curvar. O sol, agora, está mesmo de frente para mim, e os seus fortes raios, cegam-me, por instantes, a vista. Olho em volta, e paro nos campos, no intermináveis campos, que voltam a florescer, janela fora. Corro por entre eles, até para frente a um bravo touro, que por eles pastam, e num pestanejar do touro, estou de volta ao meu lugar, do comboio. O touro parece ter-me sentido, por ali, porque tenta, sem grande sucesso, acompanhar o comboio, vindo em minha direcção. Os campos multiplicam-se agora, e daqui em diante, sei que pouco mais irá estragar esta magnífica vista, que se vai estendendo ao longo da lezíria. Reparo nos grandiosos repuxos, que estão a regar um dos campos, e transporto-me para debaixo deles, e começo a sentir pequenas gotas de água, escorrerem-me pela boca fora. Entornei um bocado de água, enquanto dava um pequeno gole, que me refrescasse esta sede. Regresso ao comboio, e às planícies que agora tomam conta do horizonte. Enormes planícies, e pequenos montes, repletas de, também elas, enormes, árvores. Corro por entre as árvores, e paro junto a uma pequena fonte, que permanece intacta, junto a umas velhas ruínas, de uma antiga habitação, que algures no tempo, ficou abandonada. Junto à fonte, encontra-se uma bela rapariga, que observava o horizonte. Sorri. O seu sorriso parece convidar-me a juntar-me junto dela, e a beber da sua fonte, mas fico estagnado no seu rosto. O seu rosto é-me familiar, mas não consigo, precisar de onde a reconheço. Então, sorrio, e enquanto caminho para junto dela, reparo em como os seus grandes e redondos, olhos azuis, se arregalam. Ouço-a dizer algo, mas não consigo perceber o quê, porque nesse mesmo instante, estou de volta ao meu lugar de comboio, onde a vejo novamente. Na outra ponta da carruagem, a olhar o infinito, enquanto escuta, atentamente, à música que toca nos seus ouvidos. Olho em volta, e consigo ver, o rio Tejo, novamente. Sinal que Santarém está mesmo à porta, e que mais uma viagem passou. Está na hora de largar a escrita, de largar os pensamentos, e de abandonar o comboio, e terminar, mais uma breve viagem…

in "Viagens Dentro"