15 novembro 2006

Estava uma bonita, e fresca, tarde de Outono. Fresca, mas não tanto. O Sol, embora pequeno, iluminava de uma forma quase mágica, aquelas antigas ruas da cidade, repletas de, praticamente desnudas, árvores, pintadas em variados tons acastanhados. O sol, permitia ainda, que esta tarde, não fosse tão fresca como as outras tardes de Outono, o que a tornava, numa ainda mais bela tarde de Outono. Eu, caminhava, descontraidamente, saboreando cada passo que dava, aproveitando ao máximo, cada pequeno momento, desta rara tarde, quando, inesperadamente, senti o teu cheiro penetrar-me pelas narinas, hipnotizando-me, quase que de imediato, pelo teu fantástico aroma, fazendo-me seguir o seu rasto, até à entrada do café. Entrei. Parei. Respirei fundo, e deixei-me levar pelo teu, cada vez mais intenso, cheiro. Deixei que o teu cheiro se apoderasse de mim, e dos meus sentidos, e sem notar, deixei que ele me começasse, lentamente, a tomar conta dos pensamentos. Olhei em meu redor, e sem dificuldade alguma, encontrei-te logo. Encontrei-te e, sem perceber, fiquei completamente vidrado em ti. No meio daquele longo café, tu foste capaz de te sobressair a tudo o resto. Avancei em teu encontro e, inconscientemente, comecei a gravar-te mentalmente. A gravar-te e a descascar-te completamente. Descascar-te, para posteriormente, te saborear. Lembro-me, que estavas iluminada por umas fortes e belas luzes, geométrica e ordenadamente posicionadas, para te melhor realçar, no meio de todos. Estavas, como que embrulhada, por um belo e charmoso vestido preto, repleto de pequenas flores, coloridas, que pareciam ter sido miraculosamente colhidas de um belo jardim. Não de um qualquer belo jardim, mas, de um jardim tão belo, e imaginário, onde nem as mais belas flores do mundo poderiam lá crescer. O teu pequeno vestido, tinha um, também ele pequeno, decote, tracejado por um pequeno picotado, que permitia, de certa forma, observar as tuas belas e apaixonantes, formas e curvas. Permitia, ainda, ter uma pequena amostra, do teu belo e doce perfume. Agarrei-te. Agarrei-te, e abracei-te, e comecei, a despir-te lentamente, pelo pequeno picotado do teu decote. Depois, com um breve olhar, de cima a baixo, apreciei, em pequenos segundos, as tuas maravilhosas e suaves formas, enquanto, permitia aos meus dedos deslizarem tranquilamente pelo teu doce corpo. Senti-os ficarem, como que, besuntados por ti. Apeteceu-me, logo, comer-te. Comer-te e devorar-te. Devorar-te devagarinho. Devorar-te e saborear, descontraidamente, cada pedaço do teu corpo, para assim, guardar o teu gosto, e o teu aroma, por muito tempo. Mas não o fiz. Não o fiz, porque, no momento em que finalmente ia saborear tal doçura, fui, nova e inesperadamente, interrompido, por algo que me chamou de volta à realidade. E, quando o teu feitiço foi finalmente quebrado, pelo rapaz que servia ao balcão, reparei, que afinal não passavas de uma pequena barra de chocolate. E, como não gosto de chocolate, acabei por ficar com o bolo…

06 outubro 2006

Voltar

Voltar. Regressar. Reaparecer. A acção de ir de novo para algo. O sentimento de Voltar. O Voltar de alguém em especial. O Voltar a um lugar especial. O Voltar de um objecto especial, que se perdera algures no tempo. Algo que Volta a aparecer, ou, que simplesmente, Volta a fazer parte de ti. O que sentes quando esse alguém, ou esse algo, Volta? O que sentes quando Voltas a esse lugar? O que terá mudado, para melhor e para pior? O que terá permanecido igual, tanto em ti, como naquele, ou naquilo, que Volta? Será que o facto de estar a Voltar, ou de estar de Volta, implica que tudo Volte a ser como dantes? Perguntas, que mesmo sem se fazerem, aparecem sempre que há uma acção de Voltar. Neste caso, ela, sentada, no seu lugar do avião, pensa na sua partida., e naqueles que deixou para trás, enquanto, espera, ansiosamente, que chegue ao seu destino. Que Volte a chegar. Que volte ao seu pequeno lugar na terra, a que chama casa. Ou que se habituou a chamar de casa. O lugar onde cresceu. O lugar onde se foi moldando, ao longo dos anos. Mas de momento, ainda não começou a pensar nele. Aliás, sempre pensou nele, mas tirou agora este momento da viagem, para pensar naqueles que deixou para trás. Sente-se ansiosa por chegar ao destino, mas ao mesmo tempo, há algo nela, e dela, que ficou para trás, e do qual não sabe quando vai Voltar a ver. É nisso que ela pensa. As amizades. A vida que Voltou a criar. Aquele conjunto de coisas, sentimentos, memórias, momentos, que foi coleccionando ao longo dos últimos anos… As pessoas que lá ficaram. Pensa naquelas que lhe são realmente importantes. Em pequenos, mas infinitamente largos, minutos, vêm-lhe pequenas imagens, recortadas de uma pequena curta-metragem, dos seus últimos anos…

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Chegaste. Acabaste de Voltar. Voltar às tuas origens. Voltar ao teu lugar, sagrado, no Mundo. Antes, de te levantares, do teu lugar, dás uma olhadela em teu redor, e vêm-te as memórias, que pareciam para sempre perdidas dentro de ti, à cabeça. Memórias de tudo aquilo, que já passaste, neste lugar. Respiras fundo. Sorris. Levantas-te, e pegas na pequena mochila, que te acompanhou, nestas últimas horas. Nesta curta, mas demorada, viagem pelos ares do Mundo. Pelos ares do mundo, e por dentro de ti mesma. O resto da bagagem, consegues reparar pela janela, já está, lá fora, mais do que preparada, para te acompanhar, nestes primeiros tempos, desta nova etapa. Caminhas, agora, em curtos passos, em direcção à saída. Sentes um pequeno nervosismo subir-te pelas pernas, mas dizes para ti mesma – É isto que eu quero. É! Vai correr tudo bem. – Estás já quase a sair, quando sentes algo, inexplicável, crescer no teu corpo. Não sabes ao certo o que será. Despedes-te com um sorriso, daquele comissário de bordo, que te andou a galar durante a viagem, enquanto, metes o pé direito fora do avião. O teu corpo parece estremecer, ao mesmo tempo em que sentes aquela humidade característica deste canto do Mundo. Parecia fazer parte daquele sentimento inexplicável que sentiras à pouco. Pensaste que poderia fazer parte de Voltar. O teu corpo estava a ser recebido pelos ares deste oriente. Sorris novamente. Sentes-te praticamente em casa, e o teu corpo, recebe-te, com um sorriso. Um sorriso largo, e alegre. Enquanto caminhas, calmamente, escadas abaixo, uma pequena vaga de vento sopra, fazendo com que os teus largos e compridos cabelos, flutuem pelo ar. Flutuam, rebeldemente, enquanto se hasteiam, bem alto, para se sentirem, novamente, no topo do Mundo. O teu corpo, está-se a recordar deste ambiente, e parece querer desfrutar, desde já, de todos estes sentimentos, já esquecidos, ao longo dos anos…


Boa viagem!

09 maio 2006

Mitzi

Morena, ou talvez até, Mulata. Moçambicana. Naturalizada Portuguesa. Médica, Mãe de doze, e mais recentemente, Avó de uma e linda e pequenina menina. Mitzi, em pequenas, simples e curtas palavras, é Amar, é Felicidade, é Dedicação, é Pureza, é Mãe. E, para mim, como para qualquer filho no mundo, o significado de Mãe é a minha Mãe. Mãe é Mitzi. Por mais dicionários que eu folheie, por mais significados que eu procure, ou por mais sinónimos que eu encontre, todos eles, vão ter ao mesmo. Mitzi! Pouco sei sobre o passado dela. Pouco, porque uma vida não se conta, vive-se. Mas desse pouco que sei, desse pouco que vou aprendendo e descobrindo, dia após dia, ano após ano, sei, que não há ninguém mais bela que ela. Mitzi! Mitzi é Equilíbrio. É a balança necessário dentro da nossa vida. É o prato, da mais bela, mas simples e aparentemente inquebrável, porcelana, da balança. Mitzi! Mitzi é Amor. Amor incondicional. Amor indiscutível. Amor imensurável. Amor repartido, de igual forma, por doze. Não há um favorito. Não pode escolher um favorito. Não quer escolher um favorito. Não tem que haver um favorito. Divide-se por todos, e esses todos, fazem um. Mitzi! Mitzi é Apaixonada. Apaixonada pela Música. Apaixonada pela Literatura. Apaixonada pela Arte. Apaixonada pelos Seus. Mitzi! Mitzi é Força. Força de querer. Força de erguer. Força de seguir. Força de andar em frente, por entre um turbulento e vertiginoso caminho, sem transpor uma réstia de fraqueza, uma gota de suor, um momento de incerteza. Mitzi! Mitzi é Orgulhosa, mas não Vaidosa. Orgulhosa de si. Orgulhosa dos seus. Mas não espera retribuições. Mitzi! Mitzi é Alegria. Alegria que dá abertamente aos seus. Alegria que recebe com certa facilidade. Alegria que gosta de partilhar. Alegria que gosta de transmitir. Mitzi! Mitzi é Dedicação. Dedicação aos filhos. Dedicação à família. Dedicação ao trabalho. Dedicação aos amigos. E por último, por mais que me confunda, vem a Dedicação a Si. Mitzi! Mitzi é Inspiração. Inspiração de Vida. Inspiração de Alegria. Inspiração de Escrita. Com Mitzi comecei a andar. Não me lembro desse dia, porque os anos já lá vão, mas sei, o dia exacto a que se refere, também graças a Mitzi. Vinte e Quatro de Janeiro de Mil Novecentos e Oitenta e Quatro. Dia de Aniversário. Exame de Especialização. Eu começo a caminhar. Quase, ou certamente, como gosto de imaginar, até a dançar. Dançar de Alegria. Dançar por Mitzi. Dançar por Mim. Com Mitzi comecei a escrever. Por Mitzi despertei em Mim, algo tão natural como o gosto pela escrita. Dia da Mãe. Concurso de Poesia para o “Dia da Mãe”. Terceira Classe. Quarta Classe. Consecutivamente descrevi aquilo que sinto hoje. Orgulho, Honra, Felicidade e Sorte por Mitzi estar na minha vida. Por Mitzi ser minha Mãe. Nesses dias, despertei em mim, o interesse e gosto pela Escrita, ao inspirar-me em Mitzi. Inspirar-me em Mitzi, para de alguma forma, Transmitir, o Intransmissível. Descrever o Indescritível. Escrever e Descrever Mitzi. Escrever algo que, por mais que eu escreva, estará sempre incompleto. Estará sempre curto. Estará sempre longe da realidade. Escrever e Descrever Mitzi. Gostava de saber, ou talvez de me lembrar, das pequenas, mas também elas grandes, frases, com que descrevi Mitzi. Com que descrevi Mãe, e o Amor que qualquer filho sente pela sua Mãe. E da mesma forma que dedicava esses poemas, dedico-te, hoje, este. Para a melhor Mãe do Mundo, do Universo, da Galáxia, da Vida. Para Ti Mitzi.

05 abril 2006

(Mais) Um Momento...

Estou ainda sentado. Paciente. Mas cada vez mais impacientes. Os minutos passam, e eu, nem por eles dou. Derivado das chaves, que tendem em não chegar, consigo, aqui, para o meu caderno, abstrair-me do mundo, que avança freneticamente, 360º graus à minha volta. Observo o infinito. Oiço sons. Barulhos da noite. Luzes que acendem. Uma porta que abre, outra que se fecha. Um carro que sobe, rua acima, outro que desce, rua abaixo. Paro. Reflicto. Seria um carro que subia rua abaixo? Outro que descia rua acima? Paro, novamente. Escuto. Um cão que ladra. Um ciclista, nocturno, que passa. Olho. Olho para as horas. Mando uma mensagem. Recebo o relatório. Espero. Escuto, novamente. Um comboio que passa, lá em baixo, muito em baixo. Uma mota que viaja, algures por ai. Paro. Levanto-me. A perna está dormente. Mas, a caneta, e consequentemente a mão, parecem não se interessar. Escreve. Escreve sem parar. Escreve palavras que passam e atravessam a minha mente, a uma velocidade estrondosa. Uma velocidade incalculável. Uma velocidade indescritível. Escreve, e continua a escrever, sem, aparentemente, se importar, no que é que escreve. Uns vizinhos que chegam. Sento-me de maneira mais “sociável”. Observo. Eles aproximam-se. Umas Boas Noites. Trocamos umas palavras. “As chaves ficaram em casa. Estão de folga.” Um até logo. Boas Noites novamente. Paro. Observo o raio do mosquito que tende em voltar. Já me deve ter picado, vezes sem conta. E eu, que tentava evitar pô-lo aqui, para assim o reduzir à sua insignificância, acabei de o imortalizar neste pedaço de papel. Pode ser que ele se farte. Ou pode ser que ele me desculpe. Se é que é o mesmo. Paro. Suspiro. Mais um suspiro. Mais um de tantos. Já estou farto de esperar. Uma porta fecha-se. Uma luz acende-se. Uns passo, que descem, aparentemente, dois a dois, os degraus das escadas. Uma rapariga, jovem, também ela, aparentemente, mais jovem do que eu, aparece. Abre a porta. Boas Noites. Deixa-me a porta encostada. Agradeço. Sorri. Um belo sorriso. Boas Noites. Sobe a rua, e entra no prédio do lado. Escrevo isto. Reflicto. Penso no sorriso. Vejo-o novamente. Agora não tão real como o real. Pois apenas o tento imaginar. Volto. Observo. Lá vem ela, novamente. Descontraidamente, o sorriso, e a sua bela dona, a descerem a rua. Encolho as pernas. Deixo passar. Fica o cheiro do seu cigarro no ar. Vou fazer o mesmo, penso para mim. Fumar um cigarro. Mais um, dos meus últimos cigarros. Pois, a interminável promessa de deixar fumar. O incontável último cigarro. Sei que este não o será. Dou longo bafo. Observo o fumo evaporar-se pelo imenso ar que me rodeia… Fumei o cigarro. Levantei-me. Estiquei as pernas. Andei. Voltei. Se a escrita tivesse tempo, poderia temporizar esta espera. Mas não. Continuo aqui. Sentado. Escrevo tudo, e ao mesmo tempo escrevo nada. Mando mais uma mensagem. Tento fazer com que o tempo se apodere momentaneamente de mim, e assim, tentar que esta interminável espera termine. Que este momento, longo momento, passe a outro. Outro mais agradável. Outros. Outros, incontáveis e imensuráveis momentos… Mais outros!

Chaves

Chaves, mas que raio de chaves. Umas palpáveis, outras nem tanto. Umas abrem portas e lugares, outras guardam coisas e segredos, outras, ainda, decifram códigos e mensagens, e outras, ainda outras, abrem e criam fortunas.

Mas estas, estas minhas chaves só me lixam é a vida. Para além de me abrir a porta, do meu pequeno, modesto, mas acolhedor refúgio, deixam-me, também elas, aqui agarrado, sentado à beira do desespero, mas ao mesmo tempo, esperançado, que a hora chegará, e que a porta se abrirá, aliás, como todas as outras, que ainda esperam ser abertas, ou outras ainda, que esperam ser descobertas…

Chaves!!!

25 janeiro 2006

AMOR CEGO

Quantas e quantas noites já passaram, desde que sentiste que aquilo que procuravas se encontra mesmo à tua frente? Quantas noites e dias já passaram, desde que conheceste, finalmente, o teu complemento?

Já perdeste a conta, é a tua primeira reacção, mas sabes porém, no teu subconsciente, que sem esforço algum, conseguirias encontrar, por entre esses milhares de milhões de memórias guardadas, etiquetadas e arquivadas, o dia, a hora, e o local exacto em que te sentiste completado.

Mas também, sabes e pensas que agora, não estás propriamente interessado, em saber há quanto tempo é que isso foi, porque, realmente o que interessa é que já a descobriste. É ela, pensas. Ela é aquela, sentes. Ela é aquela, pensas novamente, que todos nós procuramos durante uma vida inteira, e que poucos, infelizmente, a conseguem encontrar. Ela é a tua Alma Gémea. Ela é o teu Complemente, e tu possivelmente serás o dela também. Mas não o sabes ao certo, e não o saberás tão cedo. Pelo menos por enquanto. Enquanto estiveres ai sentado.

Quantos? Quantos, imaginas tu, poderão realmente, na sua longa ou curta vida, dependendo da noção de tempo a que lhe demos, ter encontrado a sua verdadeira alma gémea? Desces um pouco mais, nas profundezas da tua mente, e tentas agora, imaginá-la no teu cérebro. E atravessando dezenas, centenas e até milhares de imagens que gravaste dela, tentas reconstruí-la, agora, à tua maneira, escolhendo de entre esses milhares de imagens, o seu melhor sorriso, olhar, estado de espírito, penteado, perfume, roupa, … E crias, para ti mesmo, a melhor e mais bela fotografia mental, e possivelmente real, dela.

Sentado, agora, ainda mais profundamente, na tua complexa mente, tentas cuidadosamente observar a imagem que acabaste de criar. A imagem parece-te tão real, que consegues observá-la de qualquer ângulo e de qualquer ponto imaginário que queiras criar, dentro da tua, já imaginária imagem.

Os minutos passam, e ainda consegues ouvir, lá ao fundo desse longo corredor de pensamentos, que o relógio avança lentamente. Mas por enquanto, sentado e observando o além, pareces sentir, que o tempo parou. Parou, só para ti.

Parou para tu, calma e descontraidamente, observares, mais uma vez a imagem, que, tendes em construir e reconstruir vezes sem conta. Embora a imagem seja sempre diferente, e sempre a mais bela e bonita imagem mental que crias, não consegues parar de a reconstruir.

Aquela imagem, que cada vez que vês, te cega ainda mais. Mas tu não estás preocupado com isso, porque neste momento, como nos outros tantos, em que te sentas a pensar na tua alma gémea, não dás pelos teus sentimentos a fecharem-se e a perderem-se dentro de ti mesmo. Tal como também, sempre que fitas aquela imagem, não dás pelos teus olhos a fecharem-se cada vez mais, até que acabas, como sempre, por adormecer.

Memórias e Lembranças

Agora aqui sentado, nesta pequena, modesta, simples, e, embora custe a admitir e transmitir, aqui, neste espaço, reles secretária de mesa de quarto, consigo observar, na parede frontal, a mim, um pouco, ou melhor, parte de algo do que eu já vivi. Penso, e reflicto, sobre cada uma destas fotografias e postais, e tento, ou melhor, consigo, claramente, lembrar-me de cada uma delas, e das histórias por trás delas. São viagens, passagens, momentos, instantes, sorrisos, reflexões, e tantos outros sentimentos, que agora me custam a descrever e enumerar, que ficaram eternamente gravados numa imagem, e em alguns casos, em algumas palavras. Era capaz de escolher aleatoriamente, um dos postais, e saber, até certo ponto, o porquê dele agora me pertencer, e o porquê de eu o ter aqui comigo. Tal como poderia escolher, uma fotografia, e contar, ou descrever, a sua história e o seu momento. Há umas, que já lá foram há tantos anos, e que, por momentos, são capazes de trazer tantas saudades, de como era, de como cheirava, de como sentia, de como pensava, enfim, de como era ter aquela tenra idade. Outras, mais recentes, que me mostram aquilo que hoje sou, e me fazem pensar, que daqui a tempos, poderei ser ainda mais EU, ou seja, poderei ainda encontrar algo mais do que sou hoje, e certamente o farei. Isto são memórias, não todas, nem muitas, das que se vão arrecadando, mas simplesmente algumas, algumas mais importantes que outras, mas todas elas recordações, memórias, e ainda mais, lembranças. Agora, que penso nesta palavra, vejo claramente, que são Lembranças. Lembrança de que há pessoas que contam comigo, pessoas que me querem ver seguir, e prosseguir, na minha viagem, por outros caminhos, mais adiantados. Lembranças que há lugares que partilharam comigo, e que tal como esses lugares, partilharam algo comigo, também eu guardei algo, muito importante dentro de mim, sobre esses lugares e espaços. Lembranças, de que há algo, para além das minhas certas e inúmeras dúvidas, que há de vir, e que há e haverá sempre algo mais, a encontrar e a procurar, durante esta, curta, mas longa passagem, de mais um EU, neste já repleto mundo de “EUS”.

CORAÇÃO DE PAPEL

Ele chorava, e por mais difícil que isso fosse de aceitar ou compreender, ele continuava a chorar, e tudo o que ele queria, por mais incrível que parecesse, era algo que ninguém lhe poderia dar. Não nesta vida, e provavelmente, não numa próxima. Tudo o que ele gostava que lhe tivessem dado era, um coração de papel.

Ao princípio duvidavam do que ele pedia. Enquanto uns se riam, outros, mais sérios, ficavam pasmados com tal pedido. Para quê, quereria ele um coração de Papel, perguntavam-se…

Enquanto alguns deles deixaram-lhe com o seu, ridículo e patético pedido, outros, os mais sérios, tentaram reflectir e discutir com ele, para assim tentarem perceber, porque queria ele um coração de papel.

O coração de papel, chegaram finalmente à conclusão, era nada mais, nada menos, que um coração menos sensível, ou até um coração insensível. Mas, era não só um coração menos sensível, como também um coração, que fosse facilmente reciclável, e reutilizável.

Ele pedira um coração de papel, que fosse fabricado por um papel simples, reles, barato, e que fosse reutilizável, logo reciclável. Ele queria, disse vezes sem conta, um coração que pudesse ser facilmente riscado, borrado, estragado, cortado, esburacado e rasgado, para posteriormente o poder, sem grande demora, ou sofrimento, molhar, amassar, secar, e assim, ao reciclar, criar um “novo” coração de papel.

Reciclando-o, dizia ele, dava-lhe mais gosto de viver, porque assim, segundo ele, o coração poderia, partir-se, magoar-se, cortar-se, rachar-se, sujar-se, atirar-se, e tudo e mais alguma coisa, sem que isso lhe preocupasse muito, pois saberia, que quando ele estivesse bastante mal tratado, poderia, a um simples gesto, praticamente igual ao de um eco-ponto, coloca-lo na sua mesa de trabalho, e começar assim o seu processo de reciclagem.

Eles, os mais sérios, tentaram-lhe explicar, sem no entanto, terem muitos frutos, que um coração de papel, não era a melhor saída. Pois, eles sabiam que mesmo que fosse possível criar um coração de papel, e assim facilitar-lhe, nesse sentido a sua caminhada, essa mesma, deixaria de ter um sentido prático de o ser.

Segundo eles, os mais sérios, a razão para eles continuarem a caminhada, era o facto de terem um coração normal, ou seja, um coração algo susceptível, um coração algo vulnerável. Um coração que ao Cair e Quebrar, poderia, mesmo que demorando o seu tempo, Erguer-se e Reconstruir-se, e assim aprender e perceber, com os seus próprios erros. Eles sabiam, que o coração humano, embora por vezes fraco e ao mesmo tempo duro, era insubstituível e único.

Eles sabiam também, que embora todos nós fossemos, e acrescentaram ainda, sejamos, diferentes, necessitamos de um coração quebrável, mas, ao mesmo tempo, maleável, para assim podermos enfrentar de frente todos os desafios e problemas, que ele nos pudesse facultar ao longo da caminhada, a que eles chamavam de vida.

Mas, agora mais calmo, mas ainda assim, convincente do seu desejo de querer um coração de papel, ele, dizia-lhes, que um coração de papel, de papel reciclável, como ele pedira, jamais se magoaria realmente, quando fosse usado e abusado. Ele dizia-lhes, que esse coração de papel, jamais se alteraria, fosse em que circunstância fosse. E mesmo que fosse reutilizado vezes, e vezes sem conta, ficaria sempre como “novo” a cada reciclagem que fosse alvo.

Mesmo sabendo, que ao reciclar o seu coração de papel, ele poderia, e segundo os mais sérios, certamente o faria, cair nos mesmos erros que a sua “anterior versão” fizera, ele dizia que ao menos não sentiria dor alguma quando isso acontecesse. Segundo ele, esse coração de papel seria completamente insensível, ao toque mais suave ou mais grosso da caneta, esferográfica, lápis, ou lapiseira que o riscasse, ou ao corte mais ou menos fino da tesoura, xis acto, ou faca que ele atravessasse.

Mas no fundo ele sabia, embora os mais sábios ainda não o tivessem notado, que o papel, mesmo sendo reciclável, guardaria para sempre, parte das amarguras pelo que passara. O papel, depois de reciclado, jamais se tornará o mesmo papel que o antecedera. O coração de papel, reciclado, seria como um poço. Um poço muito longo e muito profundo, e iria guardar as todas as suas recordações, embora todas elas, camufladas e perdidas, umas no meio das outras. E, ele sabia, embora não quisesse pensar nesse momento por agora, que o coração de papel, reciclável, acabaria, por mais cedo ou mais tarde, ceder. E ai, nesse dia, ficaria um coração de papel, preto. Preto e Gasto. Gasto pelo uso. Gasto pelas reciclagens. Gasto pela dor. Gasto pela caminhada. Gasto pelo Amor…

Amar é…

Amar é Viver, E Amar é Morrer.

Amar é Ir, E Amar é Vir.

Amar é Dar, Amar é Tirar,
Amar é Enviar, Amar é Entregar.

Amar é Completar, Amar é Complementar,
Amar é Perceber, Amar é Compreender.

Amar é Cair, E Amar é Sorrir,
Amar é Agir, E Amar é Reagir,
Amar é Reflectir, E Amar é Concluir.

Amar é Falar, Amar é Conversar,
Amar é Citar, Amar é Precipitar,
Amar é Inventar.

Amar é Amanhecer, E Amar é Escurecer.

Amar é Partilhar, Amar é Guardar,
Amar é Achar, Amar é Encontrar,

Amar é Levantar, Amar é Andar,
E Amar é Parar.

Amar é Saltar, Amar é Sentar,
E Amar é Deitar.

Amar é Nadar, Amar é Afogar,
Amar é Naufragar, E Amar é Acordar.

Amar é Passear, E Amar é Viajar.

Amar é Querer, E Amar é Conhecer,
Amar é Erguer.

Amar é Jogar, Amar é Estudar,
E Amar é Trabalhar.

Amar é Sujar, Amar é Manchar,
Amar é Amachucar.

Amar é Molhar, Amar é Lavar,
Amar é Amaciar, Amar é Secar,
E Amar é Engomar.

Amar é Criar, E Amar é Comprar.

Amar é Perder, E Amar é Erguer.

Amar é Entristecer, E Amar é Esquecer.

Amar é Chorar, E Amar é Cantar,
Amar é Perdoar.

Amar é Falar, Amar é Corar,
Amar é Alegrar.

Amar é Sussurrar, E Amar é Gritar.

Amar é Querer, Amar é Ter,
Amar é Ver, E Amar é SER.

Amar é Beijar, Amar é Apreciar,
Amar é Tocar, E Amar é Apalpar.


Amar é Miar, E Amar é Voar.

Amar é Ganir, E Amar é Sentir.

Amar é Tudo, e ao mesmo tempo, Amar é Nada.

Porque Amar, Nunca é de Mais,
E Amar Nunca Será de Menos.

Amar é Tudo, Amar é Nada,
Amar é EU Amar, E
Amar é TU Amares,
Amar é como EU Amo,
Amar é como TU Amas,

Amar é…
Amar é Simplesmente Amar.