29 novembro 2005

Aos Interessados e Endereçados,

Aos Interessados e Endereçados,

Tal como o Tempo vai e vem, e a inspiração vem, atravessa-nos, e vai, também a arte, neste caso a escrita, vem e vai…Será assim tão complicado, estarmos sempre a adiantar e a evoluir, a nossa forma de ver esta arte, e também, claro, de a fazer? Não será a escrita, uma arte banal, onde cada um de nós, à sua própria maneira, e com o seu próprio intuito, junta um conjunto de ideias e imagens, palavras e sentimentos, que nos atravessam a mente, é verdade, a uma velocidade estrondosa, que até parece difícil de acompanhar?
Então, porque pura e simplesmente, esperar calma e descontraidamente, pela arte, escrita, dos outros? Porque não, nós próprios, juntarmo-nos também a ela, seja ela agradável, triste, boa, má, crítica, elogio, sentimento, arrependimento… E tentar, nem que seja tentar, juntar meia dúzia de palavras, com alguns sentimentos, e uma ideia que nos passe pela cabeça, e escreve-la, transmiti-la, e criar, também nós, algo tão imortal, como a própria escrita?...
Um desinteressado.

Passageiro(a)

«Com a viagem a prosseguir, o passageiro, já sentado calmamente, no seu devido lugar, mede, descontraidamente, mas no entanto fixamente, as medidas, a alguém, que, aparenta ser ainda jovem, não mais de 27 anos, e com um olhar bem vivo, e bem claro, que parece transparecer alegria e vida. Ela, distraída, vaguei pelos seus pensamentos, pensa o passageiro, mas de facto não poderá dizer com tanta certeza, pois a única coisa que nota, é que ela e o seu olhar, parecem viajar para o além, para o infinito, enquanto os seus ouvidos, pequenos, redondos, e bem formados, ouvem, ou pelo menos, fingem ouvir, algo que toca, no instrumento, que ela traz consigo. Enquanto isso o passageiro, continua, à sua maneira, a prosseguir as medidas da sua vizinha de bordo, que cada vez mais lhe parece, tão ou mais bela e atraente do que o seu olhar e a sua leveza aparentavam transparecer.
Ela, a passageira, não consegue acreditar, onde foi o lugar dela calhar. Tinha visto o mesmo passageiro, que agora se sentava, quase, de frente para ela, ainda dentro do terminal, e tinha, ela também, lhe tirado as medidas, enquanto ele aparentava, enquanto tomava o pequeno-almoço, apreciar a vista matinal, da janela, do café, do terminal. O olhar dele parecera, meio apreciador da paisagem, e ao mesmo tempo, meio desaparecido por entre a paisagem, pelo facto de estar a partir, reparara bem nisso, mas, também ela, não chegara a uma conclusão, que lhe permitisse saber do que seria.Entretanto entrara e sentara-se no transporte, também ela, no seu devido lugar, e vira reparar que o passageiro se sentara bem perto dela. Pensou, vagamente, em ir-se aventurar em busca de uma conversa, ou de uma companhia para a viagem, mas como ele parecia ainda estar ocupado com sua bagagem, e como a viagem ainda era longa, decidira ouvir alguma coisa, e arejar a sua mente, para depois, talvez depois, passar à frente.»

Tempo

«Esse teu ar, juvenil, mas no entanto maduro, sério, mas alegre, abriu uma grande fossa dentro de mim mesmo, e desde esse momento, que, cada olhar, que os meus olhos tendem a cruzar contigo, cavam e penetram ainda mais no interior desta escura fossa que me abriste.Vejo-te e observo-te, e tal é a força que cresce dentro de mim para avançar e lançar-me a esse teu ar, ingénuo, mas ao mesmo tempo sabedor, que fico completamente imóvel, enquanto tu, tal é a força desse teu sorriso, que parece ser sempre diferente e maior, diferente e melhor, mas sempre aliciante e encantador, caminhas lenta e normalmente por entre o teu longo e belo paraíso…»
in Estórias de um Romancista,
1896

Olhar Indiscreto

«E quando esse teu olhar captou inesperadamente o meu olhar, que viaja descontraidamente pelo mundo em meu redor, dentro deste mundo que parecia girar em meu torno, houve algo teu que ficou. Houve algo teu que ficou, que não só ficou comigo, como também, parece ter-se apoderado, sem aviso, de tudo aquilo que eu tinha dentro deste meu pequeno planeta, e sem aviso, esse teu olhar ficou gravado por entre cada canto das minhas pequenas paredes, e camadas de tecidos, que perfazem o meu EU.»

Descrever

«(...)

aquilo que eu Vivi
aquilo que eu Senti
se algum dia fosse
descrever ou tentar explicar
de tal forma que tu fosses
sequer capaz de entender
deixava de ser aquele
momento único e só
que eu Vivi,
e que eu Senti

(...)»
Alguém,
em 1675

Excertos de um Soldado II

(…) «Em sentido, na formatura, e de arma em punho, o soldado, solitário no meio do seu próprio grupo, observa atentamente o infinito, que a sua mente descreve e observa, discretamente, enquanto o capitão, na sua pose habitual, comunica tranquilamente ao seu esquadrão, as suas tarefas, para esse dia, que tão cedo teimava a nascer.Entretanto, do outro lado do quartel, faziam-se ouvir os gritos da oposição. Não eram uns gritos quais queres, mas sim uns gritos mecanizados, produzidos, por algo a que vulgarmente se chama de armas. Armas, tiros, bombas, explosões, isso era o que ouvia nessa manhã, tal como em muitas outras, para variar um bocado o monótono dia que se previa, vir dia após dia. Enquanto isso, o soldado, solitário, e em sentido, teimava em vacilar por entre o seu infinito, e pensava em quanto sentia a falta de tudo aquilo que tomara como garantido, durante estes últimos anos todos, mas que agora pareciam cada vez mais longe, e cada vez menos seu. Em sentido, ele sentia, aqueles outros sentimentos, opostos, aos que lhe tinham sido impostos, nesta fase da sua vida, que, também ela lhe tinha sido imposta.» (…)

Excertos de um Soldado I

(...) «andando por vezes perdido,o soldado mostra-se resignadoà sua missão enquanto, o senhor capitão, aproveita o caféda manhã e lê calmamente o jornal do dia.
ao mesmo tempo o Coronel, almoça,algures, com uns velhos amigos, e por entre copos e sorrisos relembrame recordam os velhos tempos, e tentam passar assim o seu dia» (...)