24 Setembro 2009

Há dias assim.

Encontro-me perdido. Perdido no meio de um gigante labirinto, que parece crescer a cada passo que dou. Um labirinto onde a cada passo que dou, mais me entranho dentro dele. Um labirinto, de avenidas, ruas, ruelas, becos, passagens e travessas. Um labirinto repleto de estranhos, conhecidos, amigos, e familiares. Um labirinto, que por vezes, aparenta ser familiar, para logo se tornar em algo, completamente, desconhecido. Normalmente, caminho tranquilamente, escolhendo, quando posso, as curvas, ou caminhos, que tomar, mas hoje encontro-me perdido. Não me apetece continuar a andar, por entre estes cruzamentos. Paro, respiro, e olho em redor. Busco, em vão, por uma rua familiar, um cheiro comum, uma cara conhecida. Penso em voltar para trás. Não consigo. Faço, então, a rua, mas de costas, andando para trás, tentando de algum modo voltar atrás, até chegar ao cruzamento em que me perdi. Nada. Olho, através do labirinto em que me encontro perdido, em meu redor, e tento andar para trás nele, mas, quando dou meia volta, deparo com o reflexo do meu percurso. Um mero reflexo, por vezes obscuro, de todo o percurso que percorri até hoje. Sorriu. Mas rapidamente caio na realidade, e paro. Paro, e olho em redor, tentando, em vão, procurar uma saída. Qualquer saída. A saída mais próxima. Nada. Nada de nada. O tempo parece continuar, alheio à minha procura. E quando dou por mim, acabei de pousar a caneta em cima da mesa. Fecho o livro, e arrasto-me até ao salão principal, onde fecho as cortinas, e apago todas as luzes. Estou no centro de um vasto salão, completamente escuro. Enquanto me vou habituando à escuridão, reparo, que há uma banheira no canto do salão. Deito-me, dentro dela. A banheira está cheia de água. Água fresca refresca-me a mente, e assim como num abrir e fechar de olhos, deparo com uma televisão, diante de mim. Está a passar uma película. Não é uma película qualquer que passa, porque me parece familiar, e conhecida, mas, ao mesmo tempo incerta e desconhecida. Reconheço o início da película, e uma pequena parte do intermédio, mas desconheço o desenrolar, e o fim dela. Desconheço ainda o estilo de película que é. Se será uma comédia, um drama, uma tragédia, ou ainda, uma mistura de todos eles. A película já vai a meio, e então, apetece-me voltar atrás, e rever o início da película. Pego no comando, e pressiono no devido botão, mas o comando não parece estar a funcionar. Tento, então, passar à frente, mas nada. Tento pausá-la, e levantar-me da banheira, mas também não consigo. Concentro-me então na película.

Um jovem, está sentado, numa secretária, teclando letra por letra, a uma velocidade incrivelmente lenta, aquilo que aqui está escrito. Tem um relógio diante dele, e enquanto escreve observa os segundos. Começa a variar a velocidade, observando se o tempo acompanha o desenrolar da sua história, mas nada parece acontecer. Levanta-se, continuando a escrever tranquilamente, sempre observando o relógio, tentado controlar todos os segundos que vão por ele passando. Imagina-se fazendo as suas acções diárias, a velocidades variadas, tentando verificar se o tempo alguma vez o acompanha. Pára. Pára de escrever. O tempo continua. O tempo não pára. Apaga uma e outra palavra. Um parágrafo inteiro. O tempo continua.

Não consigo para de olhar para a película. Tento mudar de canal. Apagar a televisão. Sair da banheira. Nada. Tento saltar, saltar porta fora, e correr. Nada. Não há reacção. Parece-me que vou ter de ficar aqui, a ver a película, esperar pelos créditos finais, e pelo fim, e tentar imaginar, que virá a seguir.

12 Maio 2009

Lack of Love

And just like a whisper, that silently makes its way trough the air, before disappearing, and getting forever lost, in time and space, love started to fade away.

Slowly, it faded away, until there was no reason or meaning to keep on going. No reason or meaning trying to fight for something that had been lost a long ago.
Something that had been lost, even before, they knew.

Both had imagined that love was on their side, for the first time in their lives.
But, in fact, love had been lost. Love had had its fate crossed long ago. Love was no longer.

And, just a fake sense of love, kept them going. Together, but alone. Both kept it walking. Both kept it going. Still, both travelled just a step back, way behind, just in case they had to runaway.

Runaway from love.
Runaway from themselves.

Runaway from love, just in time, not to get stroked by it.
Just in time not to get hurt by the lack of it…

29 Dezembro 2008

Guardião do Túria

Era grande, soberbo, forte e robusto. Nu, incapaz de sentir frio ou calor, tinha um ar branco, meio transparente, e já um bocado gasto, e acinzentado, pelos longos dias que ali passará, indiferente ao sol e à chuva, à noite e ao dia. Encontrava-se ali sentado, sempre na mesma posição, de pés no chão, com as mãos agarradas às pernas, exercendo uma pressão tal, que lhe fazia encolher, e entortar, as costas.

Observava atentamente o ritmo de vida que se desenrolava em seu redor, dia após dia. Estava assente numa pequena plataforma, erguida uns dez metros acima do topo das escadas do museu, e, desse ponto, tinha uma vista privilegiada para este canto da cidade. Estava virado para noroeste, e daí, não só controlava o tráfico que se estendia em seu redor, pelas novas avenidas, como também, podia observar e apreciar os longos, e intermináveis, jardins do Túria, o jardim botânico, e melhor ainda, um belo, único, e sempre singular, pôr-do-sol. Dia após dia, sentado e quieto, com um ar solitário, mas imponente, o Guardião, ali permanecia. Parecia esperar por algo. Esperar por alguém. Esperar por algo que desse mais sentido à sua vida, algo que lhe mudasse a vida, algo que lhe alegrasse o dia, ou simplesmente, algo que lhe fizesse companhia!

Pelo canto do olho conseguia observar milhares de pequenos humanos, que uns metros mais abaixo, ali passavam, diariamente, prosseguindo as suas rotinas. Por vezes, alguns mais humanos, reparavam nele, e paravam, para assim o verem durante uns breves segundos. E, esporadicamente, aproveitavam esses breves segundos das suas preenchidas rotinas, para captarem, e assim guardarem eternamente esse, por vezes insignificante, fragmento de vida. Considerava-os, insignificantes, porque já tinha perdido a conta aos milhares de flashes e objectivas que recaiam diariamente sobre si. Desde milésimos de segundo a largos minutos, já tinha visto de tudo. Objectivas grandes, pequenas, novas e antigas, de todos os tipos e feitios. Fragmentos, inúmeros fragmentos, infinitos fragmentos imortalizados, pelos humanos que continuavam a passar, uns metros mais abaixo. Já nada lhe surpreendia. Já não se esforçava por esboçar um sorriso, por mostrar um ar mais relaxado, ou por se endireitar. Não tencionava participar mais nesses pequenos fragmentos, das vidas dos outros, porque sabia que as objectivas continuariam a incomodar-lhe, e que esses, pequenos humanos, seguiriam com a sua vida, sem lhe agradecer, nem lhe darem uma palavra encorajadora. Seguiam, para logo depois outros aparecerem, e fazerem o mesmo.

Por vezes, o Guardião, gostava de parar de pensar durante uns breves momentos, e simplesmente observar os meros mortais, tentando imaginar como seriam, ou como seriam as suas vidas. Pegava em dois ou três humanos, e cruzando e entrelaçando-os, fazia assim, pequenas histórias, contos, e fábulas. Estes breves momentos, entretinham-no, e assim, custava-lhe menos aguardar por mais um pôr-do-sol, ou pelo cair da noite, que lhe trazia sempre, mais calma e tranquilidade.

Porém, naquela tarde, algo de estranho se passou, sem que desse por isso. Observava atentamente, e alheio a tudo em seu redor, o magnífico pôr-do-sol, depois de um belo e reconfortante dia de primavera, e, nem reparou no pequeno humano que, uns metros abaixo, aproximara-se, e munido de um pequeno bloco de notas, e uma caneta, sentar-se a seus pés. O certo, é que não sabia exprimir o que lhe atravessava o corpo. Tratava-se de algo que nunca sentira antes, e assim, aquele pôr-do-sol, parecia ser mais especial que todos os outros, e assim, tinha-se abstraído de tudo, e todos, e aplicava todas as suas energias em observá-lo. O humano, repousado sob a plataforma, sentia-o, e transcrevia-o para o seu pequeno bloco, soltando-lhe finalmente a alma. Soltando-lhe, eternamente, daquele posto de vigia, e libertando-lhe. Libertando-lhe a alma. Libertando-lhe psicologicamente, daquele canto da cidade, onde se sentia abandonado, e esquecido, ao acaso.