13 agosto 2012

Summer Breeze


I really need to stop. Stop and rest for a minute... Actually, what I really need is to stop for a minute, sit down for another, and spend another one enjoying a fresh cold beer, and then, finally, rest. Rest before my mind goes out of control.

Going down the street and into Kerrytown, just by the Market, I know this cozy bar, with a refreshing shaded patio: "Its just what I need!", my mind screams.

So, I head that way, and while I do so, I feel myself melting down, just as the sun, up on the blue sky, shines with such strength that all around me a huge wave of sweat seems to be arousing, and all around me people are starting to melt, slowly, one by one, and I that dislike those freezing winter days, for once, wish that I was an ice cube, sliding down this body, that urgently needs solidification.

"This is just my mind having this strange thoughts", I say as I try to keep my pace, and reach that cozy bar, down by the Market, before being defeated by this amazing ball of fire that seems to be following me, and, in fact, everyone else. It has been an incredibly hot day and everywhere I've been people all around have been trying to hide under the ground just like little insects. My mind keeps doing that, playing tricks on me, or on what my eyes are seeing, my ears are hearing, my nose is smelling and my senses are feeling. I look ahead and I still have a few blocks to go, and I can see liquid bodies right in front of my eyes. I start to feel her skin, her hot melting skin in my hands and, as strange as it seems, it feels really great, and it smells even better. A sweet smell, so sweet, in fact, that my taste buds are starting to water, but that might also be of this thirst that has stricken me, just like a thunder, a thunder that one knows is going to strike soon, just by looking at the dark, gray, clouds forming far in the horizon, and it's summer, and the sky is blue on one side and dark gray clouds are rising on the other: "Oh, my!", I should head down faster.

Two blocks to go, and I really need to sit down. Sit down and have all those minutes, every single one of them, just for myself. I wonder if my mind can make it till the bar, that outside patio, that cozy outside patio filled with shade and a fresh breeze and nice music before it stops working properly, and gives in and decides to... [God knows what?!]

I'm almost there, and as soon as I smell that small Siam Cuisine at the corner of the street, I feel like a celebration is going to happen inside myself, as if tiny "me's" where inside my head celebrating, jumping, and getting the champagne bottles ready. I try not to smile, not to smile too much, and keep the party inside controlled, as one does not want to look that crazy, while walking down the street.

There are plenty of seats available on the patio, and as I wait to be seated I feel my legs tremble, as I feel a bit of that fresh air, blowing through the alley, followed by the music that, as always, is inviting. It feels like mission accomplished, but I still need that cold freezing beer sliding down my throat, before I can relax and finally enjoy those eagerly awaited minutes: "That's what I'll be doing now!", I heard myself saying as I was seated and served, and I can feel a strange grin transforming into an even stranger smile, as I grab that bottle of beer and start drinking it.

23 março 2012

La Vida de José Antonio

"José Antonio es un hombre sin suerte. Nació muy tarde y murrio muy temprano, y su vida se resumió, según él a un par de días o meses, que no supe distinguir, en él cual llegó, se enamoró y se disgustó tanto, que pronto partió para toda la vida. Pobre hombre, que he venido con el único propósito de enamorarse de ella, ella que de echo se torno en la flor de sus mañanas, el sol de sus ojos, las caricias de su piel, y todo lo demás, que nos hace amar, vivir y seguir caminando en busca de una vida llena de vida. Pero el que él no sabia es que en pronto iba a partir, para el mismo hogar donde había venido, y así morir, tal como había nacido."


José António chegou de malas feitas, pronto para ficar, com a ideia de aqui permanecer e criar raízes, num dia chuvoso, não tão chuvoso como outros tantos, mas mais que outros tantos, em suma, era um dia, quão normal quantos outros tantos que se folheiam por outras tantas histórias, e se vivem por todas estas vidas.

Chegou, já maior, maior e vacinado, como se diz, e pensou que visto ter perdido toda a sua infância e toda a sua juventude, e todas aquelas alegrias, tristezas, encantos e desencantos, que ao longo dos nos nossos primeiros, longos anos, de vida, vão moldando o nosso ser, e criando a nossa pessoa, dando lugar às memórias que criamos e guardamos, teria de aproveitar ao máximo, todo o tempo que tivesse aqui, não só da melhor forma possível, mas também por muitos e largos anos, tentando de algum modo recompensar, os insubstituíveis anos dessa tal criação. O que não lhe foi dito, ao chegar, é que a sua estadia ia ser curta, demasiado curta, para o pobre António, e que muito em breve, iria regressar a esse mesmo sítio de onde apareceu.

José António, chegou para viver, pensava ele, para viver uma vida intensa e cheia de aventura, e embora desconhecesse tudo, e tudo lhe parecesse novo, havia momentos, em que tudo lhe parecia demasiado familiar, como se já tivesse vivido esta nova vida. Não sabia explicar muito bem o que sentia, nem o que sabia, e muito menos encontrar uma explicação para essas familiaridades, mas estava ansioso por aprender, e principalmente por viver, e por isso não se preocupou muito com essas questões.

José António, na realidade, veio para se enamorar. Para se apaixonar, e para dar a sua vida por essa paixão, e assim, sem saber como, quando, nem porquê, apaixonou-se por ela. Por ela, aquela flor, que cheiramos ao acordar, aquele sol, que nos ilumina ao abrirmos as cortinas, aquele sorriso, que nos encanta e delícia ao pequeno-almoço, aquele olhar, que nos fascina e mostra a beleza deste novo dia, aquela voz, que nos capta a atenção e nos distrai ao longo do dia, aquele paladar, nos seus beijos que dão gosto ao nosso jantar, e aquele tacto, que ao fim de um longo dia, deslizando pelos nossos cabelos, atravessando o nosso rosto, e percorrendo todo o nosso corpo, nos vai retirando toda e qualquer preocupação, transportando a nossa mente para um outro mundo paralelo, onde só nós existimos.

E assim, José António, pobre homem, caiu nesta terra, sem perceber muito bem onde se metia, sem ter qualquer influência no desenrolar da sua, já ela, curta vida, e, sem se aperceber apaixonou-se. Apaixonou-se de tal modo, que tudo em seu redor, toda aquela vida que perdera, ao chegar aqui já maior e vacinado, e toda aquela vida que tinha por descobrir, mesmo à sua frente, perdeu todo e qualquer sentido.

José, José António, tentaram-lhe avisar, mas enamorado como estava, perdido por entre este novo mundo, estranho e por vezes familiar, demasiado familiar, pensava por vezes, estava apaixonado, e tudo isso, todas essas estranhezas e familiaridades, dissolviam-se, prontamente, nessa poção de amor, na qual parecia estar embebedado.

Chegou e apaixonou-se, como todos sabemos, mas com o tempo, tempo esse que para ele pareciam ser dias, noites, tardes e manhãs, e que na realidade poderiam não passar de minutos ou segundos, cedo se apercebeu que esse amor, essa paixão, pela qual se atraíra, sem saber como nem porquê, se lhe escapava, e como que lhe desaparecia do coração e da alma, dando lugar a um novo sentimento. O que outrora fora uma flor bela e cheirosa, transformara-se agora numa flor murcha e mal cheirosa, o sol, perdera o seu brilho, tornando-se num sol negro e tenebroso, o sorriso, num sorriso maléfico que lhe petrificava a alma, o olhar, num olhar triste e sombrio que lhe mostravam as trevas, o paladar, num paladar amargo sensabor, e o tacto, num tacto áspero e duro, que lhe magoavam o corpo ao deslizar sobre ele, criando imagens negras na sua mente, tão negras que lhe assustavam e atormentavam.

José António entrou neste mundo, já tarde e saltando todos aqueles momentos que guardamos numa caixa, para mais tarde recordarmos, apaixonou-se por uma beleza tão rara quanto as mais belas praias, ao largo das mais límpidas e cristalinas águas do mar, por debaixo das mais magníficas e imponentes árvores, prontamente começou a sentir algo diferente, como que tivesse caído no meio de uma guerra cruel e impiedosa, onde crianças, mulheres e idosos, são levados para o campo de batalha, para serem prontamente abatidos. Era algo que não conseguia descrever, um misto de sentimentos e emoções, que desconhecera até agora, e que nesta sua breve passagem pelo mundo, contradiziam tudo aquilo que há momentos sentia, e assim, sem se aperceber, José, começava a fazer as malas, essas mesmas que trouxera para ficar, agora vazias de conteúdo, e preparava-se para partir, para partir de regresso a donde viera, e assim tal como aparecera, desaparecer, e voltar ao nada de onde veio.

José António, nunca lhe fora dito, nem mesmo na hora da sua partida, tinha um propósito nobre, considerou o seu criador, mas também cruel, pensou em seguida, mas igualmente inevitável, e assim, José António, pobre rapaz sem infância, juventude ou adolescência, com uma vida curta e apressada, que para ele lhe pareceram meses e anos, veio para se apaixonar, e para levar consigo toda a destruição dessa mesma paixão, e assim, pobre coitado, que ainda há momentos viajava por entre os mais magníficos sonhos, atravessava agora os mais horríveis pesadelos. Partia, por fim, para nunca mais voltar, deixando de algum modo o seu criador mais aliviado, embora entristecido pela pobre vida de José António.

José António, que ainda agora acordara, voltava agora a dormir, mas ainda conseguiu dizer, antes de para sempre adormecer: "Amo-te...!"

05 março 2012

Árvores de Sonhos

A jovem, que não aparentava ter mais de trinta anos, sentia-se exausta, necessitada de uma boa noite de sono, que tendia em não aparecer, e nessa tarde, enquanto deambulava pela cidade, junto à zona do Rato, sem perceber porquê, parou de pensar nas perguntas que pairavam na sua mente e que lhe tiravam o sono, e como que deixando o seu corpo levitar, seguiu o estranho e espesso perfume que pairava sobre ar, e lhe puxou até à Rua da Escola Politécnica, seguindo depois pelo portão principal de um belo jardim.

Caminhava pelos estreitos caminhos do jardim, observando as suas belas flores e espantosas árvores, quando encontrou uma gigante e magistral árvore, rodeada de outras não menos portentosas, e decidiu, aproveitar a sua bela sombra, e sentar-se junto a ela.

Há árvores que levam centenas de anos a formar-se e a crescerem até aquela estrondosa e poderosa árvore que hoje vemos, e por vezes admiramos. Outras levam apenas dezenas de anos até serem magníficas e coloridas. Mas, todas elas, têm um número sem fim de histórias, contos, fábulas e vidas para contar, e um número ainda maior de pessoas para descrever. Vidas de pessoas que todos os dias vão passando, e passeando, tanto por baixo das suas folhas e longos ramos, como por cima das suas raízes, por vezes enormes e tão extensas como a calçada sobre a qual caminhamos. Umas olham para elas, outras ignoram-nas, outras ainda, admiram-nas ao mesmo tempo que outras tantas as destroem.

São vidas de pessoas que tocam nelas, que inscrevem o seu nome nelas, que plantam outras árvores em seu redor, ou que simplesmente cortam outras tantas ao seu redor; vidas de pessoas que conspiram ou que traem na sombra das suas folhas, e outras ainda que fazem planos de vida e amam junto a elas; um número sem fim de vidas, e pessoas, que poderíamos continuar aqui a descrever.

Esta, uma bela e secular árvore, revestida de longas folhas verdes, com vastos e largos ramos, um colossal tronco, e com raízes enormes que se estendem pelo caminho, perfurando o solo em diversos lugares, parece estar perdida no tempo, alheia à rotina citadina que se desenvolve em seu redor, ao longe, relativamente longe, no outro lado do muro que circunda, o por vezes desconhecido, jardim botânico. Neste preciso momento esta árvore oferece sombra e repouso a uma jovem que se encontra a descansar encostada a uma das suas extensas raízes.

A jovem, que há momentos deambulava pela cidade, tentando abstrair-se das perguntas às quais não tinha resposta, e que tendiam em formar-se, e reformular-se, na sua mente, procurava apenas descontrair, tentando perder-se por entre os seus pensamentos, para que, de algum modo, pudesse refrescar a alma. Não percebeu muito bem porquê, nem como, mas sentiu-se repentinamente atraída por alguma força maior, e viu-se quase que obrigada a seguir este caminho, até ao recanto desta árvore. Agora, repousando, sobre esta magnífica árvore, e sem saber, nem pressentir, que ao entrar em contacto com as suas extensas raízes, ia absorvendo algumas das histórias entranhadas nas suas intermináveis veias, suspirou, e fechou os olhos.

O tempo pareceu ter parado e, por momentos, os pássaros, as borboletas, as formigas, e todos os outros insectos dos jardins pararam. Silêncio. Um silêncio que parecia mais uma bela melodia, uma música de embalar, sem notas nem tons, que a fizeram esquecer, por momentos, tudo.

Ao mesmo tempo, também ela, ia dissipando e dissolvendo os seus problemas, dúvidas, e preocupações, que rapidamente se espalhavam pelas extensas veias, misturando-se, e quase que perdendo-se, por entre um número infinito de histórias e sentimentos, escondidos e esquecidos dentro desta árvore.

O tempo voltou ao normal, e os segundos a passarem, e os minutos a correrem, e a jovem, finalmente, dormiu.

História de Um Beijo (Que tarda em chegar)

Os beijos que enviamos, uns aos outros, têm por vezes que viajar distâncias enormes, e têm sempre inúmeras razões por tardar em chegar, ou se fazer sentir, porque por vezes estamos tão distraídos com o ritmo frenético da sociedade e das nossas vidas, que nem os sentimos chegar.

Este beijo, porém, embora pequeno, como outros tantos que já te enviei, teve que atravessar dois continentes, e quase meio mundo, antes de chegar ao seu destino final, destino esse, o canto superior esquerdo do teu pescoço, que embora não o conheça, ao pormenor, tenho a certeza, de que é belo e macio, e quiçá, sensível ao tacto de um dedo que deslizando sobre o teu pescoço, quase sem o tocar, como se o dedo estivesse somente a sondar a textura e orgânica, de algo imensamente belo e frágil.

Pois bem, este beijo, como disse, embora pequeno como outros tantos, é mais forte e capaz do que os demais, e ainda mais sentido e com mais energias do que todos os outros que já te enviei. Durante a sua viagem, o seu longo percurso de Xi'an a Liboa, foi passando por milhares e milhares de pessoas, novas e velhas, crianças e idosas, rapazes como raparigas, homens e mulheres, e capturando imagens maravilhosas de lugares tão belos e únicos, que quase se poderiam considerar imaginários, e ainda outras tantas não tão belas, algumas delas, de tão horripilantes se tratarem, quase indescritíveis.

Porem, o que interessa reter, nessa longa e quase interminável viagem, é que houve situações em que o beijo, não se pôde abster, ou situações que o beijo não pôde ignorar, e em que teve de dar uso à sua razão de ser, metendo-se em prática, tentado de algum modo animar, incentivar e encorajar algumas dessas pessoas, pelas quais passou, e que nesse momento mais necessitavam de uma pequena carícia, umas para continuar, outras para se erguerem, outras ainda para se sentirem desejadas, ou melhor, para não se sentirem sós, neste enorme mundo.

Por tanto, como vês, foi uma longa e cansativa viagem, que este beijo teve pela frente, repleta de sentimentos e histórias distintas, e por vezes contraditórias, que em determinados momentos, levaram este beijo quase até à exaustão, para logo a seguir, e com a ajuda de outros tantos beijos, que também foi encontrando pela viagem, beijos de todos os géneros e feitios, se recarregar de energias e sentindo-se também ele necessitado e desejado, prosseguir a sua viagem, rumo a esse magnífico ponto, no topo do teu pescoço.

Viu beijos de amizade, de amor, de despedida e de boas vindas, e outros inocentes e puros, como a alegria de uma criança que perdida entre gargalhadas sorri e acena a uma cara amiga, que por ela passa, num lugar remoto deste mágico mundo. Todos eles, beijos genuínos, uns com longas viagens por completar, outros que chegavam ao seu destino ou que partiam em busca dos seus destinatários, e outros ainda, dados in loco, beijos entre pessoas amigas, familiares, um casal, um casal novo, um novo casal, um casal velho e um velho casal que se reunia, e outros ainda que brincavam entre si, e muitos mais, que nem com todo o tempo do mundo, teria tempo para os descrever...

Entretanto este beijo, que continua a sua viagem, em busca do seu destino, pretende assim que chegar ao seu destino, e observando a beleza que tem diante de si, constatando que está realmente perante um beleza rara, parar diante de ti, e mesmo antes de te beijar, e completar a sua missão, e assim a sua existência, com todas as suas energias, fechar-me os olhos, e como que reflectindo o que vê na minha mente, e como que tentando acompanhar a tua suave respiração, para de algum modo conectar-se ao teu ritmo cardíaco, suspirar profundamente, um último suspiro, e beijar-te o pescoço durante uns breves segundos, para logo de seguida se desfazer por entre as tuas veias, e atravessando o teu corpo, tentar de algum modo perder-se, não com medo que tu o encontres, mas com medo que um dia o esqueças, e o deixes junto a outros tantos beijos que todavia vagueiam pelo mundo, ainda em busca do seu destino.

Eterna Felicidade

A felicidade não é algo que se procure, desesperadamente ou não, e se encontre, por ai...

Sigo, percorrendo estes degraus, escadas acima e escadas abaixo. Perco conta das vezes, que vagueando por estas ruas e ruelas, sem seguir um determinado caminho ou percurso, e muito menos um rumo, dou por mim a atravessar-te, mais uma vez, tentando de algum modo apanhar esse sentimento que dá nome a este pátio e a esta travessa, estranhamente perdidas no tempo, escondida por entre o centro desta cidade.

Suponho, que, sem me aperceber, a procure, dia após dia, tentando aumentar as probabilidades de a encontrar aqui, de a apanhar aqui, ou mesmo que de passagem por aqui esteja, atravessando-a vezes sem conta... Mas, como dizem os locais, que por aqui permaneceram, alheios não só ao desenvolvimento frenético em seu redor, mas também, ao estado decadente em que cai a sua própria travessa e pátio, que ela, está sempre aqui presente e que não depende de quantas vezes a atravessamos, mas sim do sentimento com que a atravessamos.

Por vezes, estamos realmente distraídos, e só a atravessamos para cortar caminho, e fugir ao caos que borbulha dia após dia, umas ruas mais abaixo, no centro histórico da cidade, noutras estamos ocupados com pensamentos e rotinas, próprios do dia-a-dia, e apressados, nem damos por ela, que olhando e sorrindo para nós, tentando de algum modo chamar-nos à atenção, tenta partilhar connosco parte do seu interminável sentimento.

Sento-me, agora, nestes mesmos degraus, e percorro cada parede do seu pátio, cada pormenor das suas velhas casas, e das outras mais abaixo, já em ruínas, onde cada pedra parece transmitir um sem número de histórias, de outros tempos, tempos áureos, onde a vida ainda se fazia sentir, atravessando esta travessa, escura e estreita, passando por este pequeno pátio, e subindo pelas escadas até ao pátio superior.

Observo os gatos, que percorrem os telhados, diante de mim, também eles alheios à decadência em que deixámos este magnífico lugar, e ainda uma ou outra pessoa, que volta e meia, aproveita este pequeno corta-mato para fugir ao tal aglomerado humano, e por vezes descontrolado, do centro da cidade.

Agora, a passo lento, e com o apoio de uma velha bengala de madeira, uma senhora bela e encantadora, com um vestido típico chinês, aparece por entre a escuridão da travessa, e aproxima-se sorridentemente, parecendo transpor uma alegria tremenda a cada passo que dá, com alguma dificuldade, com a ajuda da sua bengala.

Preparo-me para me levantar, para a deixar passar, mas faz sinal para esperar, e ao chegar-se junto dos primeiros degraus, diz-me: "Deixa-te estar jovem. Ainda tenho que recuperar o fôlego, e ganhar alguma coragem, antes de começar a subir estes degraus. Senta-te, senta-te."

E assim volto a sentar-me, e continuo percorrendo, nos meus pensamentos, esse pátio, rejuvenescido, cativador, e cheio de vida, de outros tempos.

"Isto nem sempre foi assim, sabe? Há muitos, muitos anos, quando eu ainda era jovem, talvez ainda mais jovem que você, este pátio tinha muita vida. Crianças sorriam e brincavam, pulavam e cantavam... Era realmente belo, e agora, para mim, continua com o mesmo encanto"

"Sim, suponho que sim. Curioso, estava agora mesmo a imaginar como seria isto noutros tempos, com mais..."

"Ai, você é jovem, não precisa pensar nesses tempos. É verdade, que era muito belo e encantador, e as casas... As casas estavam mais vistosas também... Mas tudo segue, e a vida continua. Sabe, pode ser que um dia, também se lembrem de renovar e restaurar isto, mas sinceramente, espero não estar aqui quando esse dia chegar, e encherem este pátio, esta travessa, estas casas, e estes degraus, do mesmo que se vê ali ao lado."

"É verdade, esperemos que não chegue assim a esse ponto, também..."

"... Gosto muito disto assim. Ao menos, permanece genuíno, ao contrário do resto da cidade que se vai desenvolvendo muito aleatoriamente. Mas olhe, você é que é jovem, você é que poderá ficar para ver a que ponto chegarão as coisas..."

Levanta-se, com a ajuda da sua bengala, e prepara-se para retomar o seu caminho, começando a subir as escadas. Levanto-me também, e deixando a passar, observo a dificuldade, com que sobe os degraus, mas que ao mesmo tempo, parece fazer com muita tranquilidade e alegria.

"Adeus minha senhora, e tentarei que não estraguem tudo..."

Não responde, mas ao chegar ao cimo da pequena escadaria, sem olhar para trás, diz: "Sabe, tenho-o visto por aqui passar. E hoje pareceu-me estar no ponto certo... Acho que já está pronto, para seguir."

Não tive tempo de responder, porque seguiu, e quando tentei subir apressadamente as escadas, já não fui a tempo de a ver. Não sei por onde terá seguido, nem como se terá apressado tanto, mas não a consegui encontrar mais.

A felicidade é isso. Um beijo, um abraço, um sorriso, uma lágrima, um cumprimento e um adeus. Uma pequena conversa ou um pequeno diálogo, uma bela imagem, uma bela música, um belo prato, ou uma bela carícia. São pequenos momentos de felicidade, que vamos acumulando e guardando ao longo de uma vida. A felicidade não se compra, e muito menos se vende, não se troca, nem se ganha. A felicidade está em amar, e não em ser amado.

A felicidade, a Eterna Felicidade, está dentro de cada um de nós, dentro de tudo aquilo que fazemos e damos, dentro de tudo aquilo que sentimos e dizemos, dentro dos nossos olhos, da nossa mente, do nosso coração, dentro de todos nós. Por vezes, não a vemos ou sentimos, mas ela está, sempre presente, por mais ou menos obscura que se faça sentir, ela está e estará dentro de cada um de nós, sempre ao nosso alcance, e muitas vezes mais próxima do que possa parecer.