25 janeiro 2006

AMOR CEGO

Quantas e quantas noites já passaram, desde que sentiste que aquilo que procuravas se encontra mesmo à tua frente? Quantas noites e dias já passaram, desde que conheceste, finalmente, o teu complemento?

Já perdeste a conta, é a tua primeira reacção, mas sabes porém, no teu subconsciente, que sem esforço algum, conseguirias encontrar, por entre esses milhares de milhões de memórias guardadas, etiquetadas e arquivadas, o dia, a hora, e o local exacto em que te sentiste completado.

Mas também, sabes e pensas que agora, não estás propriamente interessado, em saber há quanto tempo é que isso foi, porque, realmente o que interessa é que já a descobriste. É ela, pensas. Ela é aquela, sentes. Ela é aquela, pensas novamente, que todos nós procuramos durante uma vida inteira, e que poucos, infelizmente, a conseguem encontrar. Ela é a tua Alma Gémea. Ela é o teu Complemente, e tu possivelmente serás o dela também. Mas não o sabes ao certo, e não o saberás tão cedo. Pelo menos por enquanto. Enquanto estiveres ai sentado.

Quantos? Quantos, imaginas tu, poderão realmente, na sua longa ou curta vida, dependendo da noção de tempo a que lhe demos, ter encontrado a sua verdadeira alma gémea? Desces um pouco mais, nas profundezas da tua mente, e tentas agora, imaginá-la no teu cérebro. E atravessando dezenas, centenas e até milhares de imagens que gravaste dela, tentas reconstruí-la, agora, à tua maneira, escolhendo de entre esses milhares de imagens, o seu melhor sorriso, olhar, estado de espírito, penteado, perfume, roupa, … E crias, para ti mesmo, a melhor e mais bela fotografia mental, e possivelmente real, dela.

Sentado, agora, ainda mais profundamente, na tua complexa mente, tentas cuidadosamente observar a imagem que acabaste de criar. A imagem parece-te tão real, que consegues observá-la de qualquer ângulo e de qualquer ponto imaginário que queiras criar, dentro da tua, já imaginária imagem.

Os minutos passam, e ainda consegues ouvir, lá ao fundo desse longo corredor de pensamentos, que o relógio avança lentamente. Mas por enquanto, sentado e observando o além, pareces sentir, que o tempo parou. Parou, só para ti.

Parou para tu, calma e descontraidamente, observares, mais uma vez a imagem, que, tendes em construir e reconstruir vezes sem conta. Embora a imagem seja sempre diferente, e sempre a mais bela e bonita imagem mental que crias, não consegues parar de a reconstruir.

Aquela imagem, que cada vez que vês, te cega ainda mais. Mas tu não estás preocupado com isso, porque neste momento, como nos outros tantos, em que te sentas a pensar na tua alma gémea, não dás pelos teus sentimentos a fecharem-se e a perderem-se dentro de ti mesmo. Tal como também, sempre que fitas aquela imagem, não dás pelos teus olhos a fecharem-se cada vez mais, até que acabas, como sempre, por adormecer.

Memórias e Lembranças

Agora aqui sentado, nesta pequena, modesta, simples, e, embora custe a admitir e transmitir, aqui, neste espaço, reles secretária de mesa de quarto, consigo observar, na parede frontal, a mim, um pouco, ou melhor, parte de algo do que eu já vivi. Penso, e reflicto, sobre cada uma destas fotografias e postais, e tento, ou melhor, consigo, claramente, lembrar-me de cada uma delas, e das histórias por trás delas. São viagens, passagens, momentos, instantes, sorrisos, reflexões, e tantos outros sentimentos, que agora me custam a descrever e enumerar, que ficaram eternamente gravados numa imagem, e em alguns casos, em algumas palavras. Era capaz de escolher aleatoriamente, um dos postais, e saber, até certo ponto, o porquê dele agora me pertencer, e o porquê de eu o ter aqui comigo. Tal como poderia escolher, uma fotografia, e contar, ou descrever, a sua história e o seu momento. Há umas, que já lá foram há tantos anos, e que, por momentos, são capazes de trazer tantas saudades, de como era, de como cheirava, de como sentia, de como pensava, enfim, de como era ter aquela tenra idade. Outras, mais recentes, que me mostram aquilo que hoje sou, e me fazem pensar, que daqui a tempos, poderei ser ainda mais EU, ou seja, poderei ainda encontrar algo mais do que sou hoje, e certamente o farei. Isto são memórias, não todas, nem muitas, das que se vão arrecadando, mas simplesmente algumas, algumas mais importantes que outras, mas todas elas recordações, memórias, e ainda mais, lembranças. Agora, que penso nesta palavra, vejo claramente, que são Lembranças. Lembrança de que há pessoas que contam comigo, pessoas que me querem ver seguir, e prosseguir, na minha viagem, por outros caminhos, mais adiantados. Lembranças que há lugares que partilharam comigo, e que tal como esses lugares, partilharam algo comigo, também eu guardei algo, muito importante dentro de mim, sobre esses lugares e espaços. Lembranças, de que há algo, para além das minhas certas e inúmeras dúvidas, que há de vir, e que há e haverá sempre algo mais, a encontrar e a procurar, durante esta, curta, mas longa passagem, de mais um EU, neste já repleto mundo de “EUS”.

CORAÇÃO DE PAPEL

Ele chorava, e por mais difícil que isso fosse de aceitar ou compreender, ele continuava a chorar, e tudo o que ele queria, por mais incrível que parecesse, era algo que ninguém lhe poderia dar. Não nesta vida, e provavelmente, não numa próxima. Tudo o que ele gostava que lhe tivessem dado era, um coração de papel.

Ao princípio duvidavam do que ele pedia. Enquanto uns se riam, outros, mais sérios, ficavam pasmados com tal pedido. Para quê, quereria ele um coração de Papel, perguntavam-se…

Enquanto alguns deles deixaram-lhe com o seu, ridículo e patético pedido, outros, os mais sérios, tentaram reflectir e discutir com ele, para assim tentarem perceber, porque queria ele um coração de papel.

O coração de papel, chegaram finalmente à conclusão, era nada mais, nada menos, que um coração menos sensível, ou até um coração insensível. Mas, era não só um coração menos sensível, como também um coração, que fosse facilmente reciclável, e reutilizável.

Ele pedira um coração de papel, que fosse fabricado por um papel simples, reles, barato, e que fosse reutilizável, logo reciclável. Ele queria, disse vezes sem conta, um coração que pudesse ser facilmente riscado, borrado, estragado, cortado, esburacado e rasgado, para posteriormente o poder, sem grande demora, ou sofrimento, molhar, amassar, secar, e assim, ao reciclar, criar um “novo” coração de papel.

Reciclando-o, dizia ele, dava-lhe mais gosto de viver, porque assim, segundo ele, o coração poderia, partir-se, magoar-se, cortar-se, rachar-se, sujar-se, atirar-se, e tudo e mais alguma coisa, sem que isso lhe preocupasse muito, pois saberia, que quando ele estivesse bastante mal tratado, poderia, a um simples gesto, praticamente igual ao de um eco-ponto, coloca-lo na sua mesa de trabalho, e começar assim o seu processo de reciclagem.

Eles, os mais sérios, tentaram-lhe explicar, sem no entanto, terem muitos frutos, que um coração de papel, não era a melhor saída. Pois, eles sabiam que mesmo que fosse possível criar um coração de papel, e assim facilitar-lhe, nesse sentido a sua caminhada, essa mesma, deixaria de ter um sentido prático de o ser.

Segundo eles, os mais sérios, a razão para eles continuarem a caminhada, era o facto de terem um coração normal, ou seja, um coração algo susceptível, um coração algo vulnerável. Um coração que ao Cair e Quebrar, poderia, mesmo que demorando o seu tempo, Erguer-se e Reconstruir-se, e assim aprender e perceber, com os seus próprios erros. Eles sabiam, que o coração humano, embora por vezes fraco e ao mesmo tempo duro, era insubstituível e único.

Eles sabiam também, que embora todos nós fossemos, e acrescentaram ainda, sejamos, diferentes, necessitamos de um coração quebrável, mas, ao mesmo tempo, maleável, para assim podermos enfrentar de frente todos os desafios e problemas, que ele nos pudesse facultar ao longo da caminhada, a que eles chamavam de vida.

Mas, agora mais calmo, mas ainda assim, convincente do seu desejo de querer um coração de papel, ele, dizia-lhes, que um coração de papel, de papel reciclável, como ele pedira, jamais se magoaria realmente, quando fosse usado e abusado. Ele dizia-lhes, que esse coração de papel, jamais se alteraria, fosse em que circunstância fosse. E mesmo que fosse reutilizado vezes, e vezes sem conta, ficaria sempre como “novo” a cada reciclagem que fosse alvo.

Mesmo sabendo, que ao reciclar o seu coração de papel, ele poderia, e segundo os mais sérios, certamente o faria, cair nos mesmos erros que a sua “anterior versão” fizera, ele dizia que ao menos não sentiria dor alguma quando isso acontecesse. Segundo ele, esse coração de papel seria completamente insensível, ao toque mais suave ou mais grosso da caneta, esferográfica, lápis, ou lapiseira que o riscasse, ou ao corte mais ou menos fino da tesoura, xis acto, ou faca que ele atravessasse.

Mas no fundo ele sabia, embora os mais sábios ainda não o tivessem notado, que o papel, mesmo sendo reciclável, guardaria para sempre, parte das amarguras pelo que passara. O papel, depois de reciclado, jamais se tornará o mesmo papel que o antecedera. O coração de papel, reciclado, seria como um poço. Um poço muito longo e muito profundo, e iria guardar as todas as suas recordações, embora todas elas, camufladas e perdidas, umas no meio das outras. E, ele sabia, embora não quisesse pensar nesse momento por agora, que o coração de papel, reciclável, acabaria, por mais cedo ou mais tarde, ceder. E ai, nesse dia, ficaria um coração de papel, preto. Preto e Gasto. Gasto pelo uso. Gasto pelas reciclagens. Gasto pela dor. Gasto pela caminhada. Gasto pelo Amor…

Amar é…

Amar é Viver, E Amar é Morrer.

Amar é Ir, E Amar é Vir.

Amar é Dar, Amar é Tirar,
Amar é Enviar, Amar é Entregar.

Amar é Completar, Amar é Complementar,
Amar é Perceber, Amar é Compreender.

Amar é Cair, E Amar é Sorrir,
Amar é Agir, E Amar é Reagir,
Amar é Reflectir, E Amar é Concluir.

Amar é Falar, Amar é Conversar,
Amar é Citar, Amar é Precipitar,
Amar é Inventar.

Amar é Amanhecer, E Amar é Escurecer.

Amar é Partilhar, Amar é Guardar,
Amar é Achar, Amar é Encontrar,

Amar é Levantar, Amar é Andar,
E Amar é Parar.

Amar é Saltar, Amar é Sentar,
E Amar é Deitar.

Amar é Nadar, Amar é Afogar,
Amar é Naufragar, E Amar é Acordar.

Amar é Passear, E Amar é Viajar.

Amar é Querer, E Amar é Conhecer,
Amar é Erguer.

Amar é Jogar, Amar é Estudar,
E Amar é Trabalhar.

Amar é Sujar, Amar é Manchar,
Amar é Amachucar.

Amar é Molhar, Amar é Lavar,
Amar é Amaciar, Amar é Secar,
E Amar é Engomar.

Amar é Criar, E Amar é Comprar.

Amar é Perder, E Amar é Erguer.

Amar é Entristecer, E Amar é Esquecer.

Amar é Chorar, E Amar é Cantar,
Amar é Perdoar.

Amar é Falar, Amar é Corar,
Amar é Alegrar.

Amar é Sussurrar, E Amar é Gritar.

Amar é Querer, Amar é Ter,
Amar é Ver, E Amar é SER.

Amar é Beijar, Amar é Apreciar,
Amar é Tocar, E Amar é Apalpar.


Amar é Miar, E Amar é Voar.

Amar é Ganir, E Amar é Sentir.

Amar é Tudo, e ao mesmo tempo, Amar é Nada.

Porque Amar, Nunca é de Mais,
E Amar Nunca Será de Menos.

Amar é Tudo, Amar é Nada,
Amar é EU Amar, E
Amar é TU Amares,
Amar é como EU Amo,
Amar é como TU Amas,

Amar é…
Amar é Simplesmente Amar.