05 março 2012

Árvores de Sonhos

A jovem, que não aparentava ter mais de trinta anos, sentia-se exausta, necessitada de uma boa noite de sono, que tendia em não aparecer, e nessa tarde, enquanto deambulava pela cidade, junto à zona do Rato, sem perceber porquê, parou de pensar nas perguntas que pairavam na sua mente e que lhe tiravam o sono, e como que deixando o seu corpo levitar, seguiu o estranho e espesso perfume que pairava sobre ar, e lhe puxou até à Rua da Escola Politécnica, seguindo depois pelo portão principal de um belo jardim.

Caminhava pelos estreitos caminhos do jardim, observando as suas belas flores e espantosas árvores, quando encontrou uma gigante e magistral árvore, rodeada de outras não menos portentosas, e decidiu, aproveitar a sua bela sombra, e sentar-se junto a ela.

Há árvores que levam centenas de anos a formar-se e a crescerem até aquela estrondosa e poderosa árvore que hoje vemos, e por vezes admiramos. Outras levam apenas dezenas de anos até serem magníficas e coloridas. Mas, todas elas, têm um número sem fim de histórias, contos, fábulas e vidas para contar, e um número ainda maior de pessoas para descrever. Vidas de pessoas que todos os dias vão passando, e passeando, tanto por baixo das suas folhas e longos ramos, como por cima das suas raízes, por vezes enormes e tão extensas como a calçada sobre a qual caminhamos. Umas olham para elas, outras ignoram-nas, outras ainda, admiram-nas ao mesmo tempo que outras tantas as destroem.

São vidas de pessoas que tocam nelas, que inscrevem o seu nome nelas, que plantam outras árvores em seu redor, ou que simplesmente cortam outras tantas ao seu redor; vidas de pessoas que conspiram ou que traem na sombra das suas folhas, e outras ainda que fazem planos de vida e amam junto a elas; um número sem fim de vidas, e pessoas, que poderíamos continuar aqui a descrever.

Esta, uma bela e secular árvore, revestida de longas folhas verdes, com vastos e largos ramos, um colossal tronco, e com raízes enormes que se estendem pelo caminho, perfurando o solo em diversos lugares, parece estar perdida no tempo, alheia à rotina citadina que se desenvolve em seu redor, ao longe, relativamente longe, no outro lado do muro que circunda, o por vezes desconhecido, jardim botânico. Neste preciso momento esta árvore oferece sombra e repouso a uma jovem que se encontra a descansar encostada a uma das suas extensas raízes.

A jovem, que há momentos deambulava pela cidade, tentando abstrair-se das perguntas às quais não tinha resposta, e que tendiam em formar-se, e reformular-se, na sua mente, procurava apenas descontrair, tentando perder-se por entre os seus pensamentos, para que, de algum modo, pudesse refrescar a alma. Não percebeu muito bem porquê, nem como, mas sentiu-se repentinamente atraída por alguma força maior, e viu-se quase que obrigada a seguir este caminho, até ao recanto desta árvore. Agora, repousando, sobre esta magnífica árvore, e sem saber, nem pressentir, que ao entrar em contacto com as suas extensas raízes, ia absorvendo algumas das histórias entranhadas nas suas intermináveis veias, suspirou, e fechou os olhos.

O tempo pareceu ter parado e, por momentos, os pássaros, as borboletas, as formigas, e todos os outros insectos dos jardins pararam. Silêncio. Um silêncio que parecia mais uma bela melodia, uma música de embalar, sem notas nem tons, que a fizeram esquecer, por momentos, tudo.

Ao mesmo tempo, também ela, ia dissipando e dissolvendo os seus problemas, dúvidas, e preocupações, que rapidamente se espalhavam pelas extensas veias, misturando-se, e quase que perdendo-se, por entre um número infinito de histórias e sentimentos, escondidos e esquecidos dentro desta árvore.

O tempo voltou ao normal, e os segundos a passarem, e os minutos a correrem, e a jovem, finalmente, dormiu.
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