05 março 2012

História de Um Beijo (Que tarda em chegar)

Os beijos que enviamos, uns aos outros, têm por vezes que viajar distâncias enormes, e têm sempre inúmeras razões por tardar em chegar, ou se fazer sentir, porque por vezes estamos tão distraídos com o ritmo frenético da sociedade e das nossas vidas, que nem os sentimos chegar.

Este beijo, porém, embora pequeno, como outros tantos que já te enviei, teve que atravessar dois continentes, e quase meio mundo, antes de chegar ao seu destino final, destino esse, o canto superior esquerdo do teu pescoço, que embora não o conheça, ao pormenor, tenho a certeza, de que é belo e macio, e quiçá, sensível ao tacto de um dedo que deslizando sobre o teu pescoço, quase sem o tocar, como se o dedo estivesse somente a sondar a textura e orgânica, de algo imensamente belo e frágil.

Pois bem, este beijo, como disse, embora pequeno como outros tantos, é mais forte e capaz do que os demais, e ainda mais sentido e com mais energias do que todos os outros que já te enviei. Durante a sua viagem, o seu longo percurso de Xi'an a Liboa, foi passando por milhares e milhares de pessoas, novas e velhas, crianças e idosas, rapazes como raparigas, homens e mulheres, e capturando imagens maravilhosas de lugares tão belos e únicos, que quase se poderiam considerar imaginários, e ainda outras tantas não tão belas, algumas delas, de tão horripilantes se tratarem, quase indescritíveis.

Porem, o que interessa reter, nessa longa e quase interminável viagem, é que houve situações em que o beijo, não se pôde abster, ou situações que o beijo não pôde ignorar, e em que teve de dar uso à sua razão de ser, metendo-se em prática, tentado de algum modo animar, incentivar e encorajar algumas dessas pessoas, pelas quais passou, e que nesse momento mais necessitavam de uma pequena carícia, umas para continuar, outras para se erguerem, outras ainda para se sentirem desejadas, ou melhor, para não se sentirem sós, neste enorme mundo.

Por tanto, como vês, foi uma longa e cansativa viagem, que este beijo teve pela frente, repleta de sentimentos e histórias distintas, e por vezes contraditórias, que em determinados momentos, levaram este beijo quase até à exaustão, para logo a seguir, e com a ajuda de outros tantos beijos, que também foi encontrando pela viagem, beijos de todos os géneros e feitios, se recarregar de energias e sentindo-se também ele necessitado e desejado, prosseguir a sua viagem, rumo a esse magnífico ponto, no topo do teu pescoço.

Viu beijos de amizade, de amor, de despedida e de boas vindas, e outros inocentes e puros, como a alegria de uma criança que perdida entre gargalhadas sorri e acena a uma cara amiga, que por ela passa, num lugar remoto deste mágico mundo. Todos eles, beijos genuínos, uns com longas viagens por completar, outros que chegavam ao seu destino ou que partiam em busca dos seus destinatários, e outros ainda, dados in loco, beijos entre pessoas amigas, familiares, um casal, um casal novo, um novo casal, um casal velho e um velho casal que se reunia, e outros ainda que brincavam entre si, e muitos mais, que nem com todo o tempo do mundo, teria tempo para os descrever...

Entretanto este beijo, que continua a sua viagem, em busca do seu destino, pretende assim que chegar ao seu destino, e observando a beleza que tem diante de si, constatando que está realmente perante um beleza rara, parar diante de ti, e mesmo antes de te beijar, e completar a sua missão, e assim a sua existência, com todas as suas energias, fechar-me os olhos, e como que reflectindo o que vê na minha mente, e como que tentando acompanhar a tua suave respiração, para de algum modo conectar-se ao teu ritmo cardíaco, suspirar profundamente, um último suspiro, e beijar-te o pescoço durante uns breves segundos, para logo de seguida se desfazer por entre as tuas veias, e atravessando o teu corpo, tentar de algum modo perder-se, não com medo que tu o encontres, mas com medo que um dia o esqueças, e o deixes junto a outros tantos beijos que todavia vagueiam pelo mundo, ainda em busca do seu destino.
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