23 julho 2013

Tempestade Emocional

O vento sopra forte, forte também é a chuva que cai sobre nós, pobres humanos. 

Pela cidade fora inocentes árvores caiem, derrubadas pela intensidade do vento, e da natureza, que demonstra parte do seu poder, enquanto outras, mais preparadas e enraizadas, apenas tremem; pela cidade fora  ruas e ruelas alagam-se, umas mais que outras; 

Aqui, na zona, as ruas mais se parecem com pequenas afluentes de um rio, com a água a transbordar pelas suas bordas, transbordando para os passeios; as sarjetas assemelham-se com pequenas panelas de pressão, cuspindo água pelas suas ranhuras; enquanto isso aqui e ali carros ficam encalhados no meio da rua e motas são derrubadas pela água que desce avenida fora. 

Eu, estou cá dentro, sentado na varanda a fumar um cigarro. A casa vazia parece silenciar-se, temendo o pior da tempestade, que tende em agravar-se. Não só se agrava como também se prolonga pela madrugada dentro. Observo a fúria da chuva que cai e os relâmpagos que intervaladamente vão iluminando o céu, e animando os alarmes dos carros lá em baixo. 

O relógio já marca horas tardias da madrugada, e eu, já sentado no sofá, escrevo. Comparo o meu coração, que vai palpitando ao ritmo destes relâmpagos com a tempestade que se faz sentir. Amanhã passará, penso; amanhã será sempre outro dia. 

Acordo com os flashes dos relâmpagos: É tarde! Escrevo, mas nada escrevo; a caneta pára e os olhos fecham-se. 

A tempestade passará e o céu azul, como sempre, voltará a reflectir-se no sol, e a iluminar esta especial cidade. Cidade esta, repleta de anormais e burros, na qual, eu sou só mais um. Mais um entre outros tantos.

Olho em volta, o quadro de Mona Lisa que já lá não está; o Picasso que se transformou; a casa que perdeu o sentimento. 

Onde estou, pergunto-me. Não obtenho resposta. 

O silêncio é interrompido por mais um portentoso trovão que abala momentaneamente o prédio. 

Onde vou, questiona-me o silêncio que o sucede. Não sei. Não navego, sigo a ondulação do mar e o sabor do vento. 

Olho para o espelho. A vida do outro lado do espelho parece bem mais animada que esta, mais sorridente e entusiasmada; talvez, nesse lado, o barco navegue com um rumo. 

A passageira sentada no porto, observa os dois barcos que atracam diante de si. Um sem rumo, outro com um destino delineado. Embarca neste último, sorridente, enquanto o capitão assinala a partida, e o barco parte. 

O outro navio, abandonado, sem rumo, sem destino e sem passageiros, é obrigado a deixar o porto. 

Molhados, sinto os dedos molhados, e que o cigarro acaba; a noite chama pela cama. 

A chuva cai, e o vento sopra; e o navio abandonado por mais que tente deixar o porto, regressa à costa. 

A luz, a luz não se acende. A lua brilha, a lua brilha sobre o tampo da mesa. 

Apaga, apaga a luz, e dorme. 

A tempestade passará, o céu azul brilhará.

JC
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