29 dezembro 2008

Guardião do Túria

Era grande, soberbo, forte e robusto. Nu, incapaz de sentir frio ou calor, tinha um ar branco, meio transparente, e já um bocado gasto, e acinzentado, pelos longos dias que ali passará, indiferente ao sol e à chuva, à noite e ao dia. Encontrava-se ali sentado, sempre na mesma posição, de pés no chão, com as mãos agarradas às pernas, exercendo uma pressão tal, que lhe fazia encolher, e entortar, as costas.

Observava atentamente o ritmo de vida que se desenrolava em seu redor, dia após dia. Estava assente numa pequena plataforma, erguida uns dez metros acima do topo das escadas do museu, e, desse ponto, tinha uma vista privilegiada para este canto da cidade. Estava virado para noroeste, e daí, não só controlava o tráfico que se estendia em seu redor, pelas novas avenidas, como também, podia observar e apreciar os longos, e intermináveis, jardins do Túria, o jardim botânico, e melhor ainda, um belo, único, e sempre singular, pôr-do-sol. Dia após dia, sentado e quieto, com um ar solitário, mas imponente, o Guardião, ali permanecia. Parecia esperar por algo. Esperar por alguém. Esperar por algo que desse mais sentido à sua vida, algo que lhe mudasse a vida, algo que lhe alegrasse o dia, ou simplesmente, algo que lhe fizesse companhia!

Pelo canto do olho conseguia observar milhares de pequenos humanos, que uns metros mais abaixo, ali passavam, diariamente, prosseguindo as suas rotinas. Por vezes, alguns mais humanos, reparavam nele, e paravam, para assim o verem durante uns breves segundos. E, esporadicamente, aproveitavam esses breves segundos das suas preenchidas rotinas, para captarem, e assim guardarem eternamente esse, por vezes insignificante, fragmento de vida. Considerava-os, insignificantes, porque já tinha perdido a conta aos milhares de flashes e objectivas que recaiam diariamente sobre si. Desde milésimos de segundo a largos minutos, já tinha visto de tudo. Objectivas grandes, pequenas, novas e antigas, de todos os tipos e feitios. Fragmentos, inúmeros fragmentos, infinitos fragmentos imortalizados, pelos humanos que continuavam a passar, uns metros mais abaixo. Já nada lhe surpreendia. Já não se esforçava por esboçar um sorriso, por mostrar um ar mais relaxado, ou por se endireitar. Não tencionava participar mais nesses pequenos fragmentos, das vidas dos outros, porque sabia que as objectivas continuariam a incomodar-lhe, e que esses, pequenos humanos, seguiriam com a sua vida, sem lhe agradecer, nem lhe darem uma palavra encorajadora. Seguiam, para logo depois outros aparecerem, e fazerem o mesmo.

Por vezes, o Guardião, gostava de parar de pensar durante uns breves momentos, e simplesmente observar os meros mortais, tentando imaginar como seriam, ou como seriam as suas vidas. Pegava em dois ou três humanos, e cruzando e entrelaçando-os, fazia assim, pequenas histórias, contos, e fábulas. Estes breves momentos, entretinham-no, e assim, custava-lhe menos aguardar por mais um pôr-do-sol, ou pelo cair da noite, que lhe trazia sempre, mais calma e tranquilidade.

Porém, naquela tarde, algo de estranho se passou, sem que desse por isso. Observava atentamente, e alheio a tudo em seu redor, o magnífico pôr-do-sol, depois de um belo e reconfortante dia de primavera, e, nem reparou no pequeno humano que, uns metros abaixo, aproximara-se, e munido de um pequeno bloco de notas, e uma caneta, sentar-se a seus pés. O certo, é que não sabia exprimir o que lhe atravessava o corpo. Tratava-se de algo que nunca sentira antes, e assim, aquele pôr-do-sol, parecia ser mais especial que todos os outros, e assim, tinha-se abstraído de tudo, e todos, e aplicava todas as suas energias em observá-lo. O humano, repousado sob a plataforma, sentia-o, e transcrevia-o para o seu pequeno bloco, soltando-lhe finalmente a alma. Soltando-lhe, eternamente, daquele posto de vigia, e libertando-lhe. Libertando-lhe a alma. Libertando-lhe psicologicamente, daquele canto da cidade, onde se sentia abandonado, e esquecido, ao acaso.
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