23 julho 2013

Tempestade Emocional

O vento sopra forte, forte também é a chuva que cai sobre nós, pobres humanos. 

Pela cidade fora inocentes árvores caiem, derrubadas pela intensidade do vento, e da natureza, que demonstra parte do seu poder, enquanto outras, mais preparadas e enraizadas, apenas tremem; pela cidade fora  ruas e ruelas alagam-se, umas mais que outras; 

Aqui, na zona, as ruas mais se parecem com pequenas afluentes de um rio, com a água a transbordar pelas suas bordas, transbordando para os passeios; as sarjetas assemelham-se com pequenas panelas de pressão, cuspindo água pelas suas ranhuras; enquanto isso aqui e ali carros ficam encalhados no meio da rua e motas são derrubadas pela água que desce avenida fora. 

Eu, estou cá dentro, sentado na varanda a fumar um cigarro. A casa vazia parece silenciar-se, temendo o pior da tempestade, que tende em agravar-se. Não só se agrava como também se prolonga pela madrugada dentro. Observo a fúria da chuva que cai e os relâmpagos que intervaladamente vão iluminando o céu, e animando os alarmes dos carros lá em baixo. 

O relógio já marca horas tardias da madrugada, e eu, já sentado no sofá, escrevo. Comparo o meu coração, que vai palpitando ao ritmo destes relâmpagos com a tempestade que se faz sentir. Amanhã passará, penso; amanhã será sempre outro dia. 

Acordo com os flashes dos relâmpagos: É tarde! Escrevo, mas nada escrevo; a caneta pára e os olhos fecham-se. 

A tempestade passará e o céu azul, como sempre, voltará a reflectir-se no sol, e a iluminar esta especial cidade. Cidade esta, repleta de anormais e burros, na qual, eu sou só mais um. Mais um entre outros tantos.

Olho em volta, o quadro de Mona Lisa que já lá não está; o Picasso que se transformou; a casa que perdeu o sentimento. 

Onde estou, pergunto-me. Não obtenho resposta. 

O silêncio é interrompido por mais um portentoso trovão que abala momentaneamente o prédio. 

Onde vou, questiona-me o silêncio que o sucede. Não sei. Não navego, sigo a ondulação do mar e o sabor do vento. 

Olho para o espelho. A vida do outro lado do espelho parece bem mais animada que esta, mais sorridente e entusiasmada; talvez, nesse lado, o barco navegue com um rumo. 

A passageira sentada no porto, observa os dois barcos que atracam diante de si. Um sem rumo, outro com um destino delineado. Embarca neste último, sorridente, enquanto o capitão assinala a partida, e o barco parte. 

O outro navio, abandonado, sem rumo, sem destino e sem passageiros, é obrigado a deixar o porto. 

Molhados, sinto os dedos molhados, e que o cigarro acaba; a noite chama pela cama. 

A chuva cai, e o vento sopra; e o navio abandonado por mais que tente deixar o porto, regressa à costa. 

A luz, a luz não se acende. A lua brilha, a lua brilha sobre o tampo da mesa. 

Apaga, apaga a luz, e dorme. 

A tempestade passará, o céu azul brilhará.

JC

15 julho 2013

Goodbyes

She said goodbye once again, as she closed the door behind her, and left for good. He did not move from where he was standing, neither did he say a word. He could feel her smell on his books, see her smile on the small mirror by the door and hear her voice singing by the kitchen table, but in the end all that there was, were mere memories of what had been. He had tried to speak, as she was walking for the door, just as he had tried when she said goodbye for the first time, but for all the words that he could think of, none were going to change her mind, and he knew that; and most importantly, she knew that too...

13 agosto 2012

Summer Breeze


I really need to stop. Stop and rest for a minute... Actually, what I really need is to stop for a minute, sit down for another, and spend another one enjoying a fresh cold beer, and then, finally, rest. Rest before my mind goes out of control.

Going down the street and into Kerrytown, just by the Market, I know this cozy bar, with a refreshing shaded patio: "Its just what I need!", my mind screams.

So, I head that way, and while I do so, I feel myself melting down, just as the sun, up on the blue sky, shines with such strength that all around me a huge wave of sweat seems to be arousing, and all around me people are starting to melt, slowly, one by one, and I that dislike those freezing winter days, for once, wish that I was an ice cube, sliding down this body, that urgently needs solidification.

"This is just my mind having this strange thoughts", I say as I try to keep my pace, and reach that cozy bar, down by the Market, before being defeated by this amazing ball of fire that seems to be following me, and, in fact, everyone else. It has been an incredibly hot day and everywhere I've been people all around have been trying to hide under the ground just like little insects. My mind keeps doing that, playing tricks on me, or on what my eyes are seeing, my ears are hearing, my nose is smelling and my senses are feeling. I look ahead and I still have a few blocks to go, and I can see liquid bodies right in front of my eyes. I start to feel her skin, her hot melting skin in my hands and, as strange as it seems, it feels really great, and it smells even better. A sweet smell, so sweet, in fact, that my taste buds are starting to water, but that might also be of this thirst that has stricken me, just like a thunder, a thunder that one knows is going to strike soon, just by looking at the dark, gray, clouds forming far in the horizon, and it's summer, and the sky is blue on one side and dark gray clouds are rising on the other: "Oh, my!", I should head down faster.

Two blocks to go, and I really need to sit down. Sit down and have all those minutes, every single one of them, just for myself. I wonder if my mind can make it till the bar, that outside patio, that cozy outside patio filled with shade and a fresh breeze and nice music before it stops working properly, and gives in and decides to... [God knows what?!]

I'm almost there, and as soon as I smell that small Siam Cuisine at the corner of the street, I feel like a celebration is going to happen inside myself, as if tiny "me's" where inside my head celebrating, jumping, and getting the champagne bottles ready. I try not to smile, not to smile too much, and keep the party inside controlled, as one does not want to look that crazy, while walking down the street.

There are plenty of seats available on the patio, and as I wait to be seated I feel my legs tremble, as I feel a bit of that fresh air, blowing through the alley, followed by the music that, as always, is inviting. It feels like mission accomplished, but I still need that cold freezing beer sliding down my throat, before I can relax and finally enjoy those eagerly awaited minutes: "That's what I'll be doing now!", I heard myself saying as I was seated and served, and I can feel a strange grin transforming into an even stranger smile, as I grab that bottle of beer and start drinking it.

23 março 2012

La Vida de José Antonio

"José Antonio es un hombre sin suerte. Nació muy tarde y murrio muy temprano, y su vida se resumió, según él a un par de días o meses, que no supe distinguir, en él cual llegó, se enamoró y se disgustó tanto, que pronto partió para toda la vida. Pobre hombre, que he venido con el único propósito de enamorarse de ella, ella que de echo se torno en la flor de sus mañanas, el sol de sus ojos, las caricias de su piel, y todo lo demás, que nos hace amar, vivir y seguir caminando en busca de una vida llena de vida. Pero el que él no sabia es que en pronto iba a partir, para el mismo hogar donde había venido, y así morir, tal como había nacido."


José António chegou de malas feitas, pronto para ficar, com a ideia de aqui permanecer e criar raízes, num dia chuvoso, não tão chuvoso como outros tantos, mas mais que outros tantos, em suma, era um dia, quão normal quantos outros tantos que se folheiam por outras tantas histórias, e se vivem por todas estas vidas.

Chegou, já maior, maior e vacinado, como se diz, e pensou que visto ter perdido toda a sua infância e toda a sua juventude, e todas aquelas alegrias, tristezas, encantos e desencantos, que ao longo dos nos nossos primeiros, longos anos, de vida, vão moldando o nosso ser, e criando a nossa pessoa, dando lugar às memórias que criamos e guardamos, teria de aproveitar ao máximo, todo o tempo que tivesse aqui, não só da melhor forma possível, mas também por muitos e largos anos, tentando de algum modo recompensar, os insubstituíveis anos dessa tal criação. O que não lhe foi dito, ao chegar, é que a sua estadia ia ser curta, demasiado curta, para o pobre António, e que muito em breve, iria regressar a esse mesmo sítio de onde apareceu.

José António, chegou para viver, pensava ele, para viver uma vida intensa e cheia de aventura, e embora desconhecesse tudo, e tudo lhe parecesse novo, havia momentos, em que tudo lhe parecia demasiado familiar, como se já tivesse vivido esta nova vida. Não sabia explicar muito bem o que sentia, nem o que sabia, e muito menos encontrar uma explicação para essas familiaridades, mas estava ansioso por aprender, e principalmente por viver, e por isso não se preocupou muito com essas questões.

José António, na realidade, veio para se enamorar. Para se apaixonar, e para dar a sua vida por essa paixão, e assim, sem saber como, quando, nem porquê, apaixonou-se por ela. Por ela, aquela flor, que cheiramos ao acordar, aquele sol, que nos ilumina ao abrirmos as cortinas, aquele sorriso, que nos encanta e delícia ao pequeno-almoço, aquele olhar, que nos fascina e mostra a beleza deste novo dia, aquela voz, que nos capta a atenção e nos distrai ao longo do dia, aquele paladar, nos seus beijos que dão gosto ao nosso jantar, e aquele tacto, que ao fim de um longo dia, deslizando pelos nossos cabelos, atravessando o nosso rosto, e percorrendo todo o nosso corpo, nos vai retirando toda e qualquer preocupação, transportando a nossa mente para um outro mundo paralelo, onde só nós existimos.

E assim, José António, pobre homem, caiu nesta terra, sem perceber muito bem onde se metia, sem ter qualquer influência no desenrolar da sua, já ela, curta vida, e, sem se aperceber apaixonou-se. Apaixonou-se de tal modo, que tudo em seu redor, toda aquela vida que perdera, ao chegar aqui já maior e vacinado, e toda aquela vida que tinha por descobrir, mesmo à sua frente, perdeu todo e qualquer sentido.

José, José António, tentaram-lhe avisar, mas enamorado como estava, perdido por entre este novo mundo, estranho e por vezes familiar, demasiado familiar, pensava por vezes, estava apaixonado, e tudo isso, todas essas estranhezas e familiaridades, dissolviam-se, prontamente, nessa poção de amor, na qual parecia estar embebedado.

Chegou e apaixonou-se, como todos sabemos, mas com o tempo, tempo esse que para ele pareciam ser dias, noites, tardes e manhãs, e que na realidade poderiam não passar de minutos ou segundos, cedo se apercebeu que esse amor, essa paixão, pela qual se atraíra, sem saber como nem porquê, se lhe escapava, e como que lhe desaparecia do coração e da alma, dando lugar a um novo sentimento. O que outrora fora uma flor bela e cheirosa, transformara-se agora numa flor murcha e mal cheirosa, o sol, perdera o seu brilho, tornando-se num sol negro e tenebroso, o sorriso, num sorriso maléfico que lhe petrificava a alma, o olhar, num olhar triste e sombrio que lhe mostravam as trevas, o paladar, num paladar amargo sensabor, e o tacto, num tacto áspero e duro, que lhe magoavam o corpo ao deslizar sobre ele, criando imagens negras na sua mente, tão negras que lhe assustavam e atormentavam.

José António entrou neste mundo, já tarde e saltando todos aqueles momentos que guardamos numa caixa, para mais tarde recordarmos, apaixonou-se por uma beleza tão rara quanto as mais belas praias, ao largo das mais límpidas e cristalinas águas do mar, por debaixo das mais magníficas e imponentes árvores, prontamente começou a sentir algo diferente, como que tivesse caído no meio de uma guerra cruel e impiedosa, onde crianças, mulheres e idosos, são levados para o campo de batalha, para serem prontamente abatidos. Era algo que não conseguia descrever, um misto de sentimentos e emoções, que desconhecera até agora, e que nesta sua breve passagem pelo mundo, contradiziam tudo aquilo que há momentos sentia, e assim, sem se aperceber, José, começava a fazer as malas, essas mesmas que trouxera para ficar, agora vazias de conteúdo, e preparava-se para partir, para partir de regresso a donde viera, e assim tal como aparecera, desaparecer, e voltar ao nada de onde veio.

José António, nunca lhe fora dito, nem mesmo na hora da sua partida, tinha um propósito nobre, considerou o seu criador, mas também cruel, pensou em seguida, mas igualmente inevitável, e assim, José António, pobre rapaz sem infância, juventude ou adolescência, com uma vida curta e apressada, que para ele lhe pareceram meses e anos, veio para se apaixonar, e para levar consigo toda a destruição dessa mesma paixão, e assim, pobre coitado, que ainda há momentos viajava por entre os mais magníficos sonhos, atravessava agora os mais horríveis pesadelos. Partia, por fim, para nunca mais voltar, deixando de algum modo o seu criador mais aliviado, embora entristecido pela pobre vida de José António.

José António, que ainda agora acordara, voltava agora a dormir, mas ainda conseguiu dizer, antes de para sempre adormecer: "Amo-te...!"

05 março 2012

Árvores de Sonhos

A jovem, que não aparentava ter mais de trinta anos, sentia-se exausta, necessitada de uma boa noite de sono, que tendia em não aparecer, e nessa tarde, enquanto deambulava pela cidade, junto à zona do Rato, sem perceber porquê, parou de pensar nas perguntas que pairavam na sua mente e que lhe tiravam o sono, e como que deixando o seu corpo levitar, seguiu o estranho e espesso perfume que pairava sobre ar, e lhe puxou até à Rua da Escola Politécnica, seguindo depois pelo portão principal de um belo jardim.

Caminhava pelos estreitos caminhos do jardim, observando as suas belas flores e espantosas árvores, quando encontrou uma gigante e magistral árvore, rodeada de outras não menos portentosas, e decidiu, aproveitar a sua bela sombra, e sentar-se junto a ela.

Há árvores que levam centenas de anos a formar-se e a crescerem até aquela estrondosa e poderosa árvore que hoje vemos, e por vezes admiramos. Outras levam apenas dezenas de anos até serem magníficas e coloridas. Mas, todas elas, têm um número sem fim de histórias, contos, fábulas e vidas para contar, e um número ainda maior de pessoas para descrever. Vidas de pessoas que todos os dias vão passando, e passeando, tanto por baixo das suas folhas e longos ramos, como por cima das suas raízes, por vezes enormes e tão extensas como a calçada sobre a qual caminhamos. Umas olham para elas, outras ignoram-nas, outras ainda, admiram-nas ao mesmo tempo que outras tantas as destroem.

São vidas de pessoas que tocam nelas, que inscrevem o seu nome nelas, que plantam outras árvores em seu redor, ou que simplesmente cortam outras tantas ao seu redor; vidas de pessoas que conspiram ou que traem na sombra das suas folhas, e outras ainda que fazem planos de vida e amam junto a elas; um número sem fim de vidas, e pessoas, que poderíamos continuar aqui a descrever.

Esta, uma bela e secular árvore, revestida de longas folhas verdes, com vastos e largos ramos, um colossal tronco, e com raízes enormes que se estendem pelo caminho, perfurando o solo em diversos lugares, parece estar perdida no tempo, alheia à rotina citadina que se desenvolve em seu redor, ao longe, relativamente longe, no outro lado do muro que circunda, o por vezes desconhecido, jardim botânico. Neste preciso momento esta árvore oferece sombra e repouso a uma jovem que se encontra a descansar encostada a uma das suas extensas raízes.

A jovem, que há momentos deambulava pela cidade, tentando abstrair-se das perguntas às quais não tinha resposta, e que tendiam em formar-se, e reformular-se, na sua mente, procurava apenas descontrair, tentando perder-se por entre os seus pensamentos, para que, de algum modo, pudesse refrescar a alma. Não percebeu muito bem porquê, nem como, mas sentiu-se repentinamente atraída por alguma força maior, e viu-se quase que obrigada a seguir este caminho, até ao recanto desta árvore. Agora, repousando, sobre esta magnífica árvore, e sem saber, nem pressentir, que ao entrar em contacto com as suas extensas raízes, ia absorvendo algumas das histórias entranhadas nas suas intermináveis veias, suspirou, e fechou os olhos.

O tempo pareceu ter parado e, por momentos, os pássaros, as borboletas, as formigas, e todos os outros insectos dos jardins pararam. Silêncio. Um silêncio que parecia mais uma bela melodia, uma música de embalar, sem notas nem tons, que a fizeram esquecer, por momentos, tudo.

Ao mesmo tempo, também ela, ia dissipando e dissolvendo os seus problemas, dúvidas, e preocupações, que rapidamente se espalhavam pelas extensas veias, misturando-se, e quase que perdendo-se, por entre um número infinito de histórias e sentimentos, escondidos e esquecidos dentro desta árvore.

O tempo voltou ao normal, e os segundos a passarem, e os minutos a correrem, e a jovem, finalmente, dormiu.

História de Um Beijo (Que tarda em chegar)

Os beijos que enviamos, uns aos outros, têm por vezes que viajar distâncias enormes, e têm sempre inúmeras razões por tardar em chegar, ou se fazer sentir, porque por vezes estamos tão distraídos com o ritmo frenético da sociedade e das nossas vidas, que nem os sentimos chegar.

Este beijo, porém, embora pequeno, como outros tantos que já te enviei, teve que atravessar dois continentes, e quase meio mundo, antes de chegar ao seu destino final, destino esse, o canto superior esquerdo do teu pescoço, que embora não o conheça, ao pormenor, tenho a certeza, de que é belo e macio, e quiçá, sensível ao tacto de um dedo que deslizando sobre o teu pescoço, quase sem o tocar, como se o dedo estivesse somente a sondar a textura e orgânica, de algo imensamente belo e frágil.

Pois bem, este beijo, como disse, embora pequeno como outros tantos, é mais forte e capaz do que os demais, e ainda mais sentido e com mais energias do que todos os outros que já te enviei. Durante a sua viagem, o seu longo percurso de Xi'an a Liboa, foi passando por milhares e milhares de pessoas, novas e velhas, crianças e idosas, rapazes como raparigas, homens e mulheres, e capturando imagens maravilhosas de lugares tão belos e únicos, que quase se poderiam considerar imaginários, e ainda outras tantas não tão belas, algumas delas, de tão horripilantes se tratarem, quase indescritíveis.

Porem, o que interessa reter, nessa longa e quase interminável viagem, é que houve situações em que o beijo, não se pôde abster, ou situações que o beijo não pôde ignorar, e em que teve de dar uso à sua razão de ser, metendo-se em prática, tentado de algum modo animar, incentivar e encorajar algumas dessas pessoas, pelas quais passou, e que nesse momento mais necessitavam de uma pequena carícia, umas para continuar, outras para se erguerem, outras ainda para se sentirem desejadas, ou melhor, para não se sentirem sós, neste enorme mundo.

Por tanto, como vês, foi uma longa e cansativa viagem, que este beijo teve pela frente, repleta de sentimentos e histórias distintas, e por vezes contraditórias, que em determinados momentos, levaram este beijo quase até à exaustão, para logo a seguir, e com a ajuda de outros tantos beijos, que também foi encontrando pela viagem, beijos de todos os géneros e feitios, se recarregar de energias e sentindo-se também ele necessitado e desejado, prosseguir a sua viagem, rumo a esse magnífico ponto, no topo do teu pescoço.

Viu beijos de amizade, de amor, de despedida e de boas vindas, e outros inocentes e puros, como a alegria de uma criança que perdida entre gargalhadas sorri e acena a uma cara amiga, que por ela passa, num lugar remoto deste mágico mundo. Todos eles, beijos genuínos, uns com longas viagens por completar, outros que chegavam ao seu destino ou que partiam em busca dos seus destinatários, e outros ainda, dados in loco, beijos entre pessoas amigas, familiares, um casal, um casal novo, um novo casal, um casal velho e um velho casal que se reunia, e outros ainda que brincavam entre si, e muitos mais, que nem com todo o tempo do mundo, teria tempo para os descrever...

Entretanto este beijo, que continua a sua viagem, em busca do seu destino, pretende assim que chegar ao seu destino, e observando a beleza que tem diante de si, constatando que está realmente perante um beleza rara, parar diante de ti, e mesmo antes de te beijar, e completar a sua missão, e assim a sua existência, com todas as suas energias, fechar-me os olhos, e como que reflectindo o que vê na minha mente, e como que tentando acompanhar a tua suave respiração, para de algum modo conectar-se ao teu ritmo cardíaco, suspirar profundamente, um último suspiro, e beijar-te o pescoço durante uns breves segundos, para logo de seguida se desfazer por entre as tuas veias, e atravessando o teu corpo, tentar de algum modo perder-se, não com medo que tu o encontres, mas com medo que um dia o esqueças, e o deixes junto a outros tantos beijos que todavia vagueiam pelo mundo, ainda em busca do seu destino.

Eterna Felicidade

A felicidade não é algo que se procure, desesperadamente ou não, e se encontre, por ai...

Sigo, percorrendo estes degraus, escadas acima e escadas abaixo. Perco conta das vezes, que vagueando por estas ruas e ruelas, sem seguir um determinado caminho ou percurso, e muito menos um rumo, dou por mim a atravessar-te, mais uma vez, tentando de algum modo apanhar esse sentimento que dá nome a este pátio e a esta travessa, estranhamente perdidas no tempo, escondida por entre o centro desta cidade.

Suponho, que, sem me aperceber, a procure, dia após dia, tentando aumentar as probabilidades de a encontrar aqui, de a apanhar aqui, ou mesmo que de passagem por aqui esteja, atravessando-a vezes sem conta... Mas, como dizem os locais, que por aqui permaneceram, alheios não só ao desenvolvimento frenético em seu redor, mas também, ao estado decadente em que cai a sua própria travessa e pátio, que ela, está sempre aqui presente e que não depende de quantas vezes a atravessamos, mas sim do sentimento com que a atravessamos.

Por vezes, estamos realmente distraídos, e só a atravessamos para cortar caminho, e fugir ao caos que borbulha dia após dia, umas ruas mais abaixo, no centro histórico da cidade, noutras estamos ocupados com pensamentos e rotinas, próprios do dia-a-dia, e apressados, nem damos por ela, que olhando e sorrindo para nós, tentando de algum modo chamar-nos à atenção, tenta partilhar connosco parte do seu interminável sentimento.

Sento-me, agora, nestes mesmos degraus, e percorro cada parede do seu pátio, cada pormenor das suas velhas casas, e das outras mais abaixo, já em ruínas, onde cada pedra parece transmitir um sem número de histórias, de outros tempos, tempos áureos, onde a vida ainda se fazia sentir, atravessando esta travessa, escura e estreita, passando por este pequeno pátio, e subindo pelas escadas até ao pátio superior.

Observo os gatos, que percorrem os telhados, diante de mim, também eles alheios à decadência em que deixámos este magnífico lugar, e ainda uma ou outra pessoa, que volta e meia, aproveita este pequeno corta-mato para fugir ao tal aglomerado humano, e por vezes descontrolado, do centro da cidade.

Agora, a passo lento, e com o apoio de uma velha bengala de madeira, uma senhora bela e encantadora, com um vestido típico chinês, aparece por entre a escuridão da travessa, e aproxima-se sorridentemente, parecendo transpor uma alegria tremenda a cada passo que dá, com alguma dificuldade, com a ajuda da sua bengala.

Preparo-me para me levantar, para a deixar passar, mas faz sinal para esperar, e ao chegar-se junto dos primeiros degraus, diz-me: "Deixa-te estar jovem. Ainda tenho que recuperar o fôlego, e ganhar alguma coragem, antes de começar a subir estes degraus. Senta-te, senta-te."

E assim volto a sentar-me, e continuo percorrendo, nos meus pensamentos, esse pátio, rejuvenescido, cativador, e cheio de vida, de outros tempos.

"Isto nem sempre foi assim, sabe? Há muitos, muitos anos, quando eu ainda era jovem, talvez ainda mais jovem que você, este pátio tinha muita vida. Crianças sorriam e brincavam, pulavam e cantavam... Era realmente belo, e agora, para mim, continua com o mesmo encanto"

"Sim, suponho que sim. Curioso, estava agora mesmo a imaginar como seria isto noutros tempos, com mais..."

"Ai, você é jovem, não precisa pensar nesses tempos. É verdade, que era muito belo e encantador, e as casas... As casas estavam mais vistosas também... Mas tudo segue, e a vida continua. Sabe, pode ser que um dia, também se lembrem de renovar e restaurar isto, mas sinceramente, espero não estar aqui quando esse dia chegar, e encherem este pátio, esta travessa, estas casas, e estes degraus, do mesmo que se vê ali ao lado."

"É verdade, esperemos que não chegue assim a esse ponto, também..."

"... Gosto muito disto assim. Ao menos, permanece genuíno, ao contrário do resto da cidade que se vai desenvolvendo muito aleatoriamente. Mas olhe, você é que é jovem, você é que poderá ficar para ver a que ponto chegarão as coisas..."

Levanta-se, com a ajuda da sua bengala, e prepara-se para retomar o seu caminho, começando a subir as escadas. Levanto-me também, e deixando a passar, observo a dificuldade, com que sobe os degraus, mas que ao mesmo tempo, parece fazer com muita tranquilidade e alegria.

"Adeus minha senhora, e tentarei que não estraguem tudo..."

Não responde, mas ao chegar ao cimo da pequena escadaria, sem olhar para trás, diz: "Sabe, tenho-o visto por aqui passar. E hoje pareceu-me estar no ponto certo... Acho que já está pronto, para seguir."

Não tive tempo de responder, porque seguiu, e quando tentei subir apressadamente as escadas, já não fui a tempo de a ver. Não sei por onde terá seguido, nem como se terá apressado tanto, mas não a consegui encontrar mais.

A felicidade é isso. Um beijo, um abraço, um sorriso, uma lágrima, um cumprimento e um adeus. Uma pequena conversa ou um pequeno diálogo, uma bela imagem, uma bela música, um belo prato, ou uma bela carícia. São pequenos momentos de felicidade, que vamos acumulando e guardando ao longo de uma vida. A felicidade não se compra, e muito menos se vende, não se troca, nem se ganha. A felicidade está em amar, e não em ser amado.

A felicidade, a Eterna Felicidade, está dentro de cada um de nós, dentro de tudo aquilo que fazemos e damos, dentro de tudo aquilo que sentimos e dizemos, dentro dos nossos olhos, da nossa mente, do nosso coração, dentro de todos nós. Por vezes, não a vemos ou sentimos, mas ela está, sempre presente, por mais ou menos obscura que se faça sentir, ela está e estará dentro de cada um de nós, sempre ao nosso alcance, e muitas vezes mais próxima do que possa parecer.

19 outubro 2010

Caminhos da Vida

Já não escrevo há semanas, e sinto, neste momento, um sem fim de ideias, pensamentos, e palavras, atravessarem-me a mente, como se tivessem aberto as comportas de uma barragem, que já transbordava de água. Sentimentos à flor da pele, que agora, me fazem pensar, em quem sou, em o que sou, em quem chegou à minha vida, e em quem deixou de aqui estar. Penso, em quem era, em quem sou e em quem quero ser. Em quem gosto, e em quem amo. Em quem marcou-me, para o bem e para o mal, e em quem deixei de gostar, deixei de amar, ou simplesmente, deixei que os meus sentimentos deixassem de existir, e sentir, o que quer que fosse. Penso em ti. E também em ti. E agora, penso em ti. Agora, que te sinto mais perto do meu coração, mas mesmo assim, distante, como nunca. Penso, que mesmo sabendo que nunca nos teremos, um para o outro, estarás para sempre dentro de mim. Penso, novamente, em ti. Não, não em ti. Tu, tu que deverias ser a pessoa, a par dela, que eu mais deveria amar, mas pela qual sinto, um par contraditório, de sentimentos, que muda, constantemente, conforme a disposição, o vento, ou simplesmente a jornada do dia. Penso, em tudo o que te fiz, e em tudo o que me fizeste, e tento juntar tudo, numa balança, que me diga, para que lado tender. Mas, em vão; a balança, recusa-se, a pesar, e a marcar o que quer que seja. Não há vencedores nesta batalha, até porque não se trata de uma. Penso, em quantas vezes decidi, que te ia apagar, eternamente, da minha vida, e desejar, que seja forte suficiente para o suportá-lo. Penso, nas vezes, em que, só, com os meus sentimentos, derramei, um mar de lágrimas, esperando que me dissesses algo, esperando que o tempo voltasse atrás, e pudesses ser aquela pessoa que mais me orgulhava. Penso, em quantas vezes desejei que partisses, e em quantas, outras tantas, desejei e supliquei para que ficasses, e que chegasse o dia em que pudéssemos fazer as pazes, e não esperar nada em troca, sendo honestos com nós próprios, e reconhecendo aquilo que somos. Penso. Penso. Penso.... E tento escrever aquilo que passa pela minha própria censura, que como ninguém, sabe o quanto censuro, e guardo, dentro desta frágil barragem de pensamentos, memórias, e tudo o demais. Tenho sede. Sede de escrever. Sede de libertar-me e falar abertamente com alguém. De me conseguir abrir, para alguém. De me conseguir abrir a alguém. Gostava de saber, não o que o futuro me reserva, mas, aquilo que quero do futuro. Gostava, de ter um caminho, por mais estreito, e íngreme que ele fosse, por mais escuro, perigoso, e assombrado que ele fosse, gostava de ter um caminho, e de ter a força, e a audacidade para o seguir. Passo a passo. Um pé depois do outro.

24 setembro 2009

Há dias assim.

Encontro-me perdido. Perdido no meio de um gigante labirinto, que parece crescer a cada passo que dou. Um labirinto onde a cada passo que dou, mais me entranho dentro dele. Um labirinto, de avenidas, ruas, ruelas, becos, passagens e travessas. Um labirinto repleto de estranhos, conhecidos, amigos, e familiares. Um labirinto, que por vezes, aparenta ser familiar, para logo se tornar em algo, completamente, desconhecido. Normalmente, caminho tranquilamente, escolhendo, quando posso, as curvas, ou caminhos, que tomar, mas hoje encontro-me perdido. Não me apetece continuar a andar, por entre estes cruzamentos. Paro, respiro, e olho em redor. Busco, em vão, por uma rua familiar, um cheiro comum, uma cara conhecida. Penso em voltar para trás. Não consigo. Faço, então, a rua, mas de costas, andando para trás, tentando de algum modo voltar atrás, até chegar ao cruzamento em que me perdi. Nada. Olho, através do labirinto em que me encontro perdido, em meu redor, e tento andar para trás nele, mas, quando dou meia volta, deparo com o reflexo do meu percurso. Um mero reflexo, por vezes obscuro, de todo o percurso que percorri até hoje. Sorrio. Mas rapidamente caio na realidade, e paro. Paro, e olho em redor, tentando, em vão, procurar uma saída. Qualquer saída. A saída mais próxima. Nada. Nada de nada. O tempo parece continuar, alheio à minha procura. E quando dou por mim, acabei de pousar a caneta em cima da mesa. Fecho o livro, e arrasto-me até ao salão principal, onde fecho as cortinas, e apago todas as luzes. Estou no centro de um vasto salão, completamente escuro. Enquanto me vou habituando à escuridão, reparo, que há uma banheira no canto do salão. Deito-me, dentro dela. A banheira está cheia de água. Água fresca refresca-me a mente, e assim como num abrir e fechar de olhos, deparo com uma televisão, diante de mim. Está a passar uma película. Não é uma película qualquer que passa, porque me parece familiar, e conhecida, mas, ao mesmo tempo incerta e desconhecida. Reconheço o início da película, e uma pequena parte do intermédio, mas desconheço o desenrolar, e o fim dela. Desconheço ainda o estilo de película que é. Se será uma comédia, um drama, uma tragédia, ou ainda, uma mistura de todos eles. A película já vai a meio, e então, apetece-me voltar atrás, e rever o início da película. Pego no comando, e pressiono no devido botão, mas o comando não parece estar a funcionar. Tento, então, passar à frente, mas nada. Tento pausá-la, e levantar-me da banheira, mas também não consigo. Concentro-me então na película.

Um jovem, está sentado, numa secretária, teclando letra por letra, a uma velocidade incrivelmente lenta, aquilo que aqui está escrito. Tem um relógio diante dele, e enquanto escreve observa os segundos. Começa a variar a velocidade, observando se o tempo acompanha o desenrolar da sua história, mas nada parece acontecer. Levanta-se, continuando a escrever tranquilamente, sempre observando o relógio, tentado controlar todos os segundos que vão por ele passando. Imagina-se fazendo as suas acções diárias, a velocidades variadas, tentando verificar se o tempo alguma vez o acompanha. Pára. Pára de escrever. O tempo continua. O tempo não pára. Apaga uma e outra palavra. Um parágrafo inteiro. O tempo continua.

Não consigo para de olhar para a película. Tento mudar de canal. Apagar a televisão. Sair da banheira. Nada. Tento saltar, saltar porta fora, e correr. Nada. Não há reacção. Parece-me que vou ter de ficar aqui, a ver a película, esperar pelos créditos finais, e pelo fim, e tentar imaginar, que virá a seguir.

13 maio 2009

Lack of Love

And just like a whisper, that silently makes its way trough the air, before disappearing, and getting forever lost, in time and space, love started to fade away.

Slowly, it faded away, until there was no reason or meaning to keep on going. No reason or meaning trying to fight for something that had been lost a long ago.
Something that had been lost, even before, they knew.

Both had imagined that love was on their side, for the first time in their lives.
But, in fact, love had been lost. Love had had its fate crossed long ago. Love was no longer.

And, just a fake sense of love, kept them going. Together, but alone. Both kept it walking. Both kept it going. Still, both travelled just a step back, way behind, just in case they had to runaway.

Runaway from love.
Runaway from themselves.

Runaway from love, just in time, not to get struck by it.
Just in time not to get hurt by the lack of it…

29 dezembro 2008

Guardião do Túria

Era grande, soberbo, forte e robusto. Nu, incapaz de sentir frio ou calor, tinha um ar branco, meio transparente, e já um bocado gasto, e acinzentado, pelos longos dias que ali passará, indiferente ao sol e à chuva, à noite e ao dia. Encontrava-se ali sentado, sempre na mesma posição, de pés no chão, com as mãos agarradas às pernas, exercendo uma pressão tal, que lhe fazia encolher, e entortar, as costas.

Observava atentamente o ritmo de vida que se desenrolava em seu redor, dia após dia. Estava assente numa pequena plataforma, erguida uns dez metros acima do topo das escadas do museu, e, desse ponto, tinha uma vista privilegiada para este canto da cidade. Estava virado para noroeste, e daí, não só controlava o tráfico que se estendia em seu redor, pelas novas avenidas, como também, podia observar e apreciar os longos, e intermináveis, jardins do Túria, o jardim botânico, e melhor ainda, um belo, único, e sempre singular, pôr-do-sol. Dia após dia, sentado e quieto, com um ar solitário, mas imponente, o Guardião, ali permanecia. Parecia esperar por algo. Esperar por alguém. Esperar por algo que desse mais sentido à sua vida, algo que lhe mudasse a vida, algo que lhe alegrasse o dia, ou simplesmente, algo que lhe fizesse companhia!

Pelo canto do olho conseguia observar milhares de pequenos humanos, que uns metros mais abaixo, ali passavam, diariamente, prosseguindo as suas rotinas. Por vezes, alguns mais humanos, reparavam nele, e paravam, para assim o verem durante uns breves segundos. E, esporadicamente, aproveitavam esses breves segundos das suas preenchidas rotinas, para captarem, e assim guardarem eternamente esse, por vezes insignificante, fragmento de vida. Considerava-os, insignificantes, porque já tinha perdido a conta aos milhares de flashes e objectivas que recaiam diariamente sobre si. Desde milésimos de segundo a largos minutos, já tinha visto de tudo. Objectivas grandes, pequenas, novas e antigas, de todos os tipos e feitios. Fragmentos, inúmeros fragmentos, infinitos fragmentos imortalizados, pelos humanos que continuavam a passar, uns metros mais abaixo. Já nada lhe surpreendia. Já não se esforçava por esboçar um sorriso, por mostrar um ar mais relaxado, ou por se endireitar. Não tencionava participar mais nesses pequenos fragmentos, das vidas dos outros, porque sabia que as objectivas continuariam a incomodar-lhe, e que esses, pequenos humanos, seguiriam com a sua vida, sem lhe agradecer, nem lhe darem uma palavra encorajadora. Seguiam, para logo depois outros aparecerem, e fazerem o mesmo.

Por vezes, o Guardião, gostava de parar de pensar durante uns breves momentos, e simplesmente observar os meros mortais, tentando imaginar como seriam, ou como seriam as suas vidas. Pegava em dois ou três humanos, e cruzando e entrelaçando-os, fazia assim, pequenas histórias, contos, e fábulas. Estes breves momentos, entretinham-no, e assim, custava-lhe menos aguardar por mais um pôr-do-sol, ou pelo cair da noite, que lhe trazia sempre, mais calma e tranquilidade.

Porém, naquela tarde, algo de estranho se passou, sem que desse por isso. Observava atentamente, e alheio a tudo em seu redor, o magnífico pôr-do-sol, depois de um belo e reconfortante dia de primavera, e, nem reparou no pequeno humano que, uns metros abaixo, aproximara-se, e munido de um pequeno bloco de notas, e uma caneta, sentar-se a seus pés. O certo, é que não sabia exprimir o que lhe atravessava o corpo. Tratava-se de algo que nunca sentira antes, e assim, aquele pôr-do-sol, parecia ser mais especial que todos os outros, e assim, tinha-se abstraído de tudo, e todos, e aplicava todas as suas energias em observá-lo. O humano, repousado sob a plataforma, sentia-o, e transcrevia-o para o seu pequeno bloco, soltando-lhe finalmente a alma. Soltando-lhe, eternamente, daquele posto de vigia, e libertando-lhe. Libertando-lhe a alma. Libertando-lhe psicologicamente, daquele canto da cidade, onde se sentia abandonado, e esquecido, ao acaso.

A Caixa


A Caixa é um recipiente bastante variado, que pode ser das mais variadas formas e feitios, de qualquer tamanho, possível e imaginário, e ainda, ser feita de qualquer material. O formato mais usual para uma caixa é o cúbico, ao qual chamamos, formalmente, de caixote. Há mesmo quem diga que o Mundo, e consequentemente, o Universo, está guardado dentro de uma “pequena” caixa, ou caixote, de laboratório. Existem ainda, entre outras, caixas feitas de madeira, rectangulares e pequenas, como esta, que agora te apresento, e da qual, provavelmente, nunca ouviste falar. Mas, não te sintas intimidada por isso Mariana, porque A Caixa, é assim mesmo, um mito caído no esquecimento da humanidade.

Uma das caixas mais conhecidas do mundo é, sem dúvida alguma, a Caixa de Pandora que, como provavelmente deves saber, guardava todos os males que se abateram sobre o mundo. Segundo reza a história, Pandora, a bem dotada, terá aberto a caixa, num acto de curiosidade, libertando, e contaminando assim, o Mundo.

A origem real d’A Caixa é um mito, ou uma lenda se preferires, e até a podes considerar algo duvidosa, mas posso-te assegurar, que A Caixa, foi mesmo criada pelas fadas mágicas que habitavam nos longínquos Bosques Mágicos celtas, a que hoje chamamos de Irlanda. A Caixa fora inicialmente prevista, para guardar os males do Mundo, entretanto libertados por Pandora, mas nunca chegou a ser completada, porque a verdade é que, nem os próprios bosques mágicos, nem as fadas que nele habitavam, resistiram, à tentação de Pandora. Foram assim devastados, e a única recordação de que há memória, e, simultaneamente, o único vestígio, da existência dos bosques e das próprias fadas, é A Caixa que tu agora “herdas”.

A Caixa foi criada pela própria madeira dos bosques mágicos, nos últimos dias da sua existência, e provavelmente, devido a isso, consegue manter o seu aspecto novo e brilhante. Segundo sei, as fadas tentaram, num último acto de desespero, ao anteverem o seu fim, lançar sobre A Caixa todos os seus poderes, imortalizando assim, toda a sua magia nela. Mas a verdade é que ainda ninguém conseguiu desvendar os seus mistérios, e por isso confirmar a sua veracidade.

A Caixa sobreviveu durante séculos e séculos, a todos os males do Mundo, e contínua assim, ainda hoje, com todos os seus misteriosos poderes intactos. Segundo me disseram, a magia dentro d’A Caixa, só poderá ser desvendada por uma PRINCESA realmente MÁGICA, e olha que durante a sua longa existência, já muitas princesas a tentaram manobrar, afirmando serem mesmo princesas mágicas, mas, como é óbvio, e já que a caixa aqui continua, sem o devido efeito.

Como estás a ler isto, é óbvio, que já tenhas aberto A Caixa. Diz a lenda, que a PRINCESA MÁGICA conseguirá ver o seu conteúdo, e assim, começar a guardar os males do Mundo, por isso, não te iludas, por ela estar, “aparentemente” vazia. Se não conseguires ver nada, não te preocupes, podes sempre utilizar A Caixa, como todas as outras princesas a têm utilizado, e guardar algo teu nela.


Parabéns!



* À Mariana, e claro agradeço, também à Mariana, a autorização, ou a falta dela, para publicá-lo.

17 março 2007

Viagem em Viagem

Estamos em Março, e a Primavera está mesmo à porta, mas no entanto, o tempo, esse tempo, parece já estar a tornar-se Verão. Está um calor imenso, e um Sol ainda maior. O Sol, forte, está lá no alto, a aquecer-nos a alma, e os corpos, e eu, estou aqui sentado, no meu lugar do comboio. Não consigo para de pensar no Verão. Olho pela janela fora, e mesmo com o ar fresco, do ar condicionado, consigo sentir, o calor, tremendo, que se faz sentir, lá fora. Consigo, por breves momentos, ao fechar os olhos, sentir aquela típica brisa do mar, a penetrar-se pelos meus cabelos, e a refrescar-me a cara. Estou de pé, a bombordo, e observo o longínquo mar, no horizonte. Inspiro fundo, e consigo transportar-me até à praia, onde sentado na areia, observo as rebentações das ondas, ao ritmo de uma suave melodia oceânica. Sinto o mar, o sal, e a arreia a entranhar-se pelas minhas pernas, e a perder-se por entre os dedos das minhas mãos, que a vão acariciando suavemente. Nestes escassos segundos, em que consigo, literalmente, viajar até ao paraíso, estou tentado em ir dar um mergulho, mas antes que me consiga levantar da areia, para fazer a minha breve caminhada até ao mar, aparece-me o revisor, o pica. O Pica? Que fará o pica, nesta minha praia, penso para comigo mesmo. Tento procurar uma razão, para tal, mas logo, deixo-me disso, visto, que estou de volta ao meu lugar, à janela do comboio. Encontra-se à minha frente, e repete, novamente, as boas tardes, e pede-me o título de transporte. Está com pressa. Com pressa! Penso que terá algo mais importante para fazer, ou algures para ir, mas também, não poderá ir muito longe, pelo menos, não mais que as carruagens do comboio. Observa atentamente o passe, e tenta em breves segundos, fazer uma comparação, entre a fotografia digitalizada, e desactualizada, do passe, e a pessoa que se encontra à sua frente, e com um aceno, confere que somos a mesma. E, na sua rotina, de passageiro em passageiro, segue a sua caminhada fora, carruagem dentro. Suspiro. Tento regressar à minha praia, e ver se ela ainda lá se encontra, e se continua tão acolhedora com estava. Fecho os olhos. Inspiro. Expiro. Fecho os olhos, novamente, e tento seguir a mesma viagem, atravessando o rio até à praia. Inspiro novamente, e tento, mais uma vez, recriar, grão a grão, a minha bela praia. Nada. Nada. Tento nadar nestes meus pensamentos, e remando, contra a maré de pensamentos, que me afluem ao cérebro, tento, em vão, voltar ao paraíso, onde me encontrava. Vazio. A praia parece ter-me desertado, ou fugido, para outro passageiro, que agora sorri, e se imagina nela. Fecho, novamente, os olhos, e espero que algo me capte, e me transporte, novamente, para fora desta carruagem. Tento concentrar-me em algo, que me capte minimamente o interesse, mas a única coisa que consigo agora ver, com os meus olhos fechados, é uma luz, que começa a cegar-me a visão. A escuridão, em que me encontrava, começa a iluminar-se cada vez mais, até que me faz abrir os olhos. O comboio encontra-se a curvar. O sol, agora, está mesmo de frente para mim, e os seus fortes raios, cegam-me, por instantes, a vista. Olho em volta, e paro nos campos, no intermináveis campos, que voltam a florescer, janela fora. Corro por entre eles, até para frente a um bravo touro, que por eles pastam, e num pestanejar do touro, estou de volta ao meu lugar, do comboio. O touro parece ter-me sentido, por ali, porque tenta, sem grande sucesso, acompanhar o comboio, vindo em minha direcção. Os campos multiplicam-se agora, e daqui em diante, sei que pouco mais irá estragar esta magnífica vista, que se vai estendendo ao longo da lezíria. Reparo nos grandiosos repuxos, que estão a regar um dos campos, e transporto-me para debaixo deles, e começo a sentir pequenas gotas de água, escorrerem-me pela boca fora. Entornei um bocado de água, enquanto dava um pequeno gole, que me refrescasse esta sede. Regresso ao comboio, e às planícies que agora tomam conta do horizonte. Enormes planícies, e pequenos montes, repletas de, também elas, enormes, árvores. Corro por entre as árvores, e paro junto a uma pequena fonte, que permanece intacta, junto a umas velhas ruínas, de uma antiga habitação, que algures no tempo, ficou abandonada. Junto à fonte, encontra-se uma bela rapariga, que observava o horizonte. Sorri. O seu sorriso parece convidar-me a juntar-me junto dela, e a beber da sua fonte, mas fico estagnado no seu rosto. O seu rosto é-me familiar, mas não consigo, precisar de onde a reconheço. Então, sorrio, e enquanto caminho para junto dela, reparo em como os seus grandes e redondos, olhos azuis, se arregalam. Ouço-a dizer algo, mas não consigo perceber o quê, porque nesse mesmo instante, estou de volta ao meu lugar de comboio, onde a vejo novamente. Na outra ponta da carruagem, a olhar o infinito, enquanto escuta, atentamente, à música que toca nos seus ouvidos. Olho em volta, e consigo ver, o rio Tejo, novamente. Sinal que Santarém está mesmo à porta, e que mais uma viagem passou. Está na hora de largar a escrita, de largar os pensamentos, e de abandonar o comboio, e terminar, mais uma breve viagem…

in "Viagens Dentro"

15 novembro 2006

Estava uma bonita, e fresca, tarde de Outono. Fresca, mas não tanto. O Sol, embora pequeno, iluminava de uma forma quase mágica, aquelas antigas ruas da cidade, repletas de, praticamente desnudas, árvores, pintadas em variados tons acastanhados. O sol, permitia ainda, que esta tarde, não fosse tão fresca como as outras tardes de Outono, o que a tornava, numa ainda mais bela tarde de Outono. Eu, caminhava, descontraidamente, saboreando cada passo que dava, aproveitando ao máximo, cada pequeno momento, desta rara tarde, quando, inesperadamente, senti o teu cheiro penetrar-me pelas narinas, hipnotizando-me, quase que de imediato, pelo teu fantástico aroma, fazendo-me seguir o seu rasto, até à entrada do café. Entrei. Parei. Respirei fundo, e deixei-me levar pelo teu, cada vez mais intenso, cheiro. Deixei que o teu cheiro se apoderasse de mim, e dos meus sentidos, e sem notar, deixei que ele me começasse, lentamente, a tomar conta dos pensamentos. Olhei em meu redor, e sem dificuldade alguma, encontrei-te logo. Encontrei-te e, sem perceber, fiquei completamente vidrado em ti. No meio daquele longo café, tu foste capaz de te sobressair a tudo o resto. Avancei em teu encontro e, inconscientemente, comecei a gravar-te mentalmente. A gravar-te e a descascar-te completamente. Descascar-te, para posteriormente, te saborear. Lembro-me, que estavas iluminada por umas fortes e belas luzes, geométrica e ordenadamente posicionadas, para te melhor realçar, no meio de todos. Estavas, como que embrulhada, por um belo e charmoso vestido preto, repleto de pequenas flores, coloridas, que pareciam ter sido miraculosamente colhidas de um belo jardim. Não de um qualquer belo jardim, mas, de um jardim tão belo, e imaginário, onde nem as mais belas flores do mundo poderiam lá crescer. O teu pequeno vestido, tinha um, também ele pequeno, decote, tracejado por um pequeno picotado, que permitia, de certa forma, observar as tuas belas e apaixonantes, formas e curvas. Permitia, ainda, ter uma pequena amostra, do teu belo e doce perfume. Agarrei-te. Agarrei-te, e abracei-te, e comecei, a despir-te lentamente, pelo pequeno picotado do teu decote. Depois, com um breve olhar, de cima a baixo, apreciei, em pequenos segundos, as tuas maravilhosas e suaves formas, enquanto, permitia aos meus dedos deslizarem tranquilamente pelo teu doce corpo. Senti-os ficarem, como que, besuntados por ti. Apeteceu-me, logo, comer-te. Comer-te e devorar-te. Devorar-te devagarinho. Devorar-te e saborear, descontraidamente, cada pedaço do teu corpo, para assim, guardar o teu gosto, e o teu aroma, por muito tempo. Mas não o fiz. Não o fiz, porque, no momento em que finalmente ia saborear tal doçura, fui, nova e inesperadamente, interrompido, por algo que me chamou de volta à realidade. E, quando o teu feitiço foi finalmente quebrado, pelo rapaz que servia ao balcão, reparei, que afinal não passavas de uma pequena barra de chocolate. E, como não gosto de chocolate, acabei por ficar com o bolo…

06 outubro 2006

Voltar

Voltar. Regressar. Reaparecer. A acção de ir de novo para algo. O sentimento de Voltar. O Voltar de alguém em especial. O Voltar a um lugar especial. O Voltar de um objecto especial, que se perdera algures no tempo. Algo que Volta a aparecer, ou, que simplesmente, Volta a fazer parte de ti. O que sentes quando esse alguém, ou esse algo, Volta? O que sentes quando Voltas a esse lugar? O que terá mudado, para melhor e para pior? O que terá permanecido igual, tanto em ti, como naquele, ou naquilo, que Volta? Será que o facto de estar a Voltar, ou de estar de Volta, implica que tudo Volte a ser como dantes? Perguntas, que mesmo sem se fazerem, aparecem sempre que há uma acção de Voltar. Neste caso, ela, sentada, no seu lugar do avião, pensa na sua partida., e naqueles que deixou para trás, enquanto, espera, ansiosamente, que chegue ao seu destino. Que Volte a chegar. Que volte ao seu pequeno lugar na terra, a que chama casa. Ou que se habituou a chamar de casa. O lugar onde cresceu. O lugar onde se foi moldando, ao longo dos anos. Mas de momento, ainda não começou a pensar nele. Aliás, sempre pensou nele, mas tirou agora este momento da viagem, para pensar naqueles que deixou para trás. Sente-se ansiosa por chegar ao destino, mas ao mesmo tempo, há algo nela, e dela, que ficou para trás, e do qual não sabe quando vai Voltar a ver. É nisso que ela pensa. As amizades. A vida que Voltou a criar. Aquele conjunto de coisas, sentimentos, memórias, momentos, que foi coleccionando ao longo dos últimos anos… As pessoas que lá ficaram. Pensa naquelas que lhe são realmente importantes. Em pequenos, mas infinitamente largos, minutos, vêm-lhe pequenas imagens, recortadas de uma pequena curta-metragem, dos seus últimos anos…

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Chegaste. Acabaste de Voltar. Voltar às tuas origens. Voltar ao teu lugar, sagrado, no Mundo. Antes, de te levantares, do teu lugar, dás uma olhadela em teu redor, e vêm-te as memórias, que pareciam para sempre perdidas dentro de ti, à cabeça. Memórias de tudo aquilo, que já passaste, neste lugar. Respiras fundo. Sorris. Levantas-te, e pegas na pequena mochila, que te acompanhou, nestas últimas horas. Nesta curta, mas demorada, viagem pelos ares do Mundo. Pelos ares do mundo, e por dentro de ti mesma. O resto da bagagem, consegues reparar pela janela, já está, lá fora, mais do que preparada, para te acompanhar, nestes primeiros tempos, desta nova etapa. Caminhas, agora, em curtos passos, em direcção à saída. Sentes um pequeno nervosismo subir-te pelas pernas, mas dizes para ti mesma – É isto que eu quero. É! Vai correr tudo bem. – Estás já quase a sair, quando sentes algo, inexplicável, crescer no teu corpo. Não sabes ao certo o que será. Despedes-te com um sorriso, daquele comissário de bordo, que te andou a galar durante a viagem, enquanto, metes o pé direito fora do avião. O teu corpo parece estremecer, ao mesmo tempo em que sentes aquela humidade característica deste canto do Mundo. Parecia fazer parte daquele sentimento inexplicável que sentiras à pouco. Pensaste que poderia fazer parte de Voltar. O teu corpo estava a ser recebido pelos ares deste oriente. Sorris novamente. Sentes-te praticamente em casa, e o teu corpo, recebe-te, com um sorriso. Um sorriso largo, e alegre. Enquanto caminhas, calmamente, escadas abaixo, uma pequena vaga de vento sopra, fazendo com que os teus largos e compridos cabelos, flutuem pelo ar. Flutuam, rebeldemente, enquanto se hasteiam, bem alto, para se sentirem, novamente, no topo do Mundo. O teu corpo, está-se a recordar deste ambiente, e parece querer desfrutar, desde já, de todos estes sentimentos, já esquecidos, ao longo dos anos…


Boa viagem!

09 maio 2006

Mitzi

Morena, ou talvez até, Mulata. Moçambicana. Naturalizada Portuguesa. Médica, Mãe de doze, e mais recentemente, Avó de uma e linda e pequenina menina. Mitzi, em pequenas, simples e curtas palavras, é Amar, é Felicidade, é Dedicação, é Pureza, é Mãe. E, para mim, como para qualquer filho no mundo, o significado de Mãe é a minha Mãe. Mãe é Mitzi. Por mais dicionários que eu folheie, por mais significados que eu procure, ou por mais sinónimos que eu encontre, todos eles, vão ter ao mesmo. Mitzi! Pouco sei sobre o passado dela. Pouco, porque uma vida não se conta, vive-se. Mas desse pouco que sei, desse pouco que vou aprendendo e descobrindo, dia após dia, ano após ano, sei, que não há ninguém mais bela que ela. Mitzi! Mitzi é Equilíbrio. É a balança necessário dentro da nossa vida. É o prato, da mais bela, mas simples e aparentemente inquebrável, porcelana, da balança. Mitzi! Mitzi é Amor. Amor incondicional. Amor indiscutível. Amor imensurável. Amor repartido, de igual forma, por doze. Não há um favorito. Não pode escolher um favorito. Não quer escolher um favorito. Não tem que haver um favorito. Divide-se por todos, e esses todos, fazem um. Mitzi! Mitzi é Apaixonada. Apaixonada pela Música. Apaixonada pela Literatura. Apaixonada pela Arte. Apaixonada pelos Seus. Mitzi! Mitzi é Força. Força de querer. Força de erguer. Força de seguir. Força de andar em frente, por entre um turbulento e vertiginoso caminho, sem transpor uma réstia de fraqueza, uma gota de suor, um momento de incerteza. Mitzi! Mitzi é Orgulhosa, mas não Vaidosa. Orgulhosa de si. Orgulhosa dos seus. Mas não espera retribuições. Mitzi! Mitzi é Alegria. Alegria que dá abertamente aos seus. Alegria que recebe com certa facilidade. Alegria que gosta de partilhar. Alegria que gosta de transmitir. Mitzi! Mitzi é Dedicação. Dedicação aos filhos. Dedicação à família. Dedicação ao trabalho. Dedicação aos amigos. E por último, por mais que me confunda, vem a Dedicação a Si. Mitzi! Mitzi é Inspiração. Inspiração de Vida. Inspiração de Alegria. Inspiração de Escrita. Com Mitzi comecei a andar. Não me lembro desse dia, porque os anos já lá vão, mas sei, o dia exacto a que se refere, também graças a Mitzi. Vinte e Quatro de Janeiro de Mil Novecentos e Oitenta e Quatro. Dia de Aniversário. Exame de Especialização. Eu começo a caminhar. Quase, ou certamente, como gosto de imaginar, até a dançar. Dançar de Alegria. Dançar por Mitzi. Dançar por Mim. Com Mitzi comecei a escrever. Por Mitzi despertei em Mim, algo tão natural como o gosto pela escrita. Dia da Mãe. Concurso de Poesia para o “Dia da Mãe”. Terceira Classe. Quarta Classe. Consecutivamente descrevi aquilo que sinto hoje. Orgulho, Honra, Felicidade e Sorte por Mitzi estar na minha vida. Por Mitzi ser minha Mãe. Nesses dias, despertei em mim, o interesse e gosto pela Escrita, ao inspirar-me em Mitzi. Inspirar-me em Mitzi, para de alguma forma, Transmitir, o Intransmissível. Descrever o Indescritível. Escrever e Descrever Mitzi. Escrever algo que, por mais que eu escreva, estará sempre incompleto. Estará sempre curto. Estará sempre longe da realidade. Escrever e Descrever Mitzi. Gostava de saber, ou talvez de me lembrar, das pequenas, mas também elas grandes, frases, com que descrevi Mitzi. Com que descrevi Mãe, e o Amor que qualquer filho sente pela sua Mãe. E da mesma forma que dedicava esses poemas, dedico-te, hoje, este. Para a melhor Mãe do Mundo, do Universo, da Galáxia, da Vida. Para Ti Mitzi.

05 abril 2006

(Mais) Um Momento...

Estou ainda sentado. Paciente. Mas cada vez mais impacientes. Os minutos passam, e eu, nem por eles dou. Derivado das chaves, que tendem em não chegar, consigo, aqui, para o meu caderno, abstrair-me do mundo, que avança freneticamente, 360º graus à minha volta. Observo o infinito. Oiço sons. Barulhos da noite. Luzes que acendem. Uma porta que abre, outra que se fecha. Um carro que sobe, rua acima, outro que desce, rua abaixo. Paro. Reflicto. Seria um carro que subia rua abaixo? Outro que descia rua acima? Paro, novamente. Escuto. Um cão que ladra. Um ciclista, nocturno, que passa. Olho. Olho para as horas. Mando uma mensagem. Recebo o relatório. Espero. Escuto, novamente. Um comboio que passa, lá em baixo, muito em baixo. Uma mota que viaja, algures por ai. Paro. Levanto-me. A perna está dormente. Mas, a caneta, e consequentemente a mão, parecem não se interessar. Escreve. Escreve sem parar. Escreve palavras que passam e atravessam a minha mente, a uma velocidade estrondosa. Uma velocidade incalculável. Uma velocidade indescritível. Escreve, e continua a escrever, sem, aparentemente, se importar, no que é que escreve. Uns vizinhos que chegam. Sento-me de maneira mais “sociável”. Observo. Eles aproximam-se. Umas Boas Noites. Trocamos umas palavras. “As chaves ficaram em casa. Estão de folga.” Um até logo. Boas Noites novamente. Paro. Observo o raio do mosquito que tende em voltar. Já me deve ter picado, vezes sem conta. E eu, que tentava evitar pô-lo aqui, para assim o reduzir à sua insignificância, acabei de o imortalizar neste pedaço de papel. Pode ser que ele se farte. Ou pode ser que ele me desculpe. Se é que é o mesmo. Paro. Suspiro. Mais um suspiro. Mais um de tantos. Já estou farto de esperar. Uma porta fecha-se. Uma luz acende-se. Uns passo, que descem, aparentemente, dois a dois, os degraus das escadas. Uma rapariga, jovem, também ela, aparentemente, mais jovem do que eu, aparece. Abre a porta. Boas Noites. Deixa-me a porta encostada. Agradeço. Sorri. Um belo sorriso. Boas Noites. Sobe a rua, e entra no prédio do lado. Escrevo isto. Reflicto. Penso no sorriso. Vejo-o novamente. Agora não tão real como o real. Pois apenas o tento imaginar. Volto. Observo. Lá vem ela, novamente. Descontraidamente, o sorriso, e a sua bela dona, a descerem a rua. Encolho as pernas. Deixo passar. Fica o cheiro do seu cigarro no ar. Vou fazer o mesmo, penso para mim. Fumar um cigarro. Mais um, dos meus últimos cigarros. Pois, a interminável promessa de deixar fumar. O incontável último cigarro. Sei que este não o será. Dou longo bafo. Observo o fumo evaporar-se pelo imenso ar que me rodeia… Fumei o cigarro. Levantei-me. Estiquei as pernas. Andei. Voltei. Se a escrita tivesse tempo, poderia temporizar esta espera. Mas não. Continuo aqui. Sentado. Escrevo tudo, e ao mesmo tempo escrevo nada. Mando mais uma mensagem. Tento fazer com que o tempo se apodere momentaneamente de mim, e assim, tentar que esta interminável espera termine. Que este momento, longo momento, passe a outro. Outro mais agradável. Outros. Outros, incontáveis e imensuráveis momentos… Mais outros!

Chaves

Chaves, mas que raio de chaves. Umas palpáveis, outras nem tanto. Umas abrem portas e lugares, outras guardam coisas e segredos, outras, ainda, decifram códigos e mensagens, e outras, ainda outras, abrem e criam fortunas.

Mas estas, estas minhas chaves só me lixam é a vida. Para além de me abrir a porta, do meu pequeno, modesto, mas acolhedor refúgio, deixam-me, também elas, aqui agarrado, sentado à beira do desespero, mas ao mesmo tempo, esperançado, que a hora chegará, e que a porta se abrirá, aliás, como todas as outras, que ainda esperam ser abertas, ou outras ainda, que esperam ser descobertas…

Chaves!!!

25 janeiro 2006

AMOR CEGO

Quantas e quantas noites já passaram, desde que sentiste que aquilo que procuravas se encontra mesmo à tua frente? Quantas noites e dias já passaram, desde que conheceste, finalmente, o teu complemento?

Já perdeste a conta, é a tua primeira reacção, mas sabes porém, no teu subconsciente, que sem esforço algum, conseguirias encontrar, por entre esses milhares de milhões de memórias guardadas, etiquetadas e arquivadas, o dia, a hora, e o local exacto em que te sentiste completado.

Mas também, sabes e pensas que agora, não estás propriamente interessado, em saber há quanto tempo é que isso foi, porque, realmente o que interessa é que já a descobriste. É ela, pensas. Ela é aquela, sentes. Ela é aquela, pensas novamente, que todos nós procuramos durante uma vida inteira, e que poucos, infelizmente, a conseguem encontrar. Ela é a tua Alma Gémea. Ela é o teu Complemente, e tu possivelmente serás o dela também. Mas não o sabes ao certo, e não o saberás tão cedo. Pelo menos por enquanto. Enquanto estiveres ai sentado.

Quantos? Quantos, imaginas tu, poderão realmente, na sua longa ou curta vida, dependendo da noção de tempo a que lhe demos, ter encontrado a sua verdadeira alma gémea? Desces um pouco mais, nas profundezas da tua mente, e tentas agora, imaginá-la no teu cérebro. E atravessando dezenas, centenas e até milhares de imagens que gravaste dela, tentas reconstruí-la, agora, à tua maneira, escolhendo de entre esses milhares de imagens, o seu melhor sorriso, olhar, estado de espírito, penteado, perfume, roupa, … E crias, para ti mesmo, a melhor e mais bela fotografia mental, e possivelmente real, dela.

Sentado, agora, ainda mais profundamente, na tua complexa mente, tentas cuidadosamente observar a imagem que acabaste de criar. A imagem parece-te tão real, que consegues observá-la de qualquer ângulo e de qualquer ponto imaginário que queiras criar, dentro da tua, já imaginária imagem.

Os minutos passam, e ainda consegues ouvir, lá ao fundo desse longo corredor de pensamentos, que o relógio avança lentamente. Mas por enquanto, sentado e observando o além, pareces sentir, que o tempo parou. Parou, só para ti.

Parou para tu, calma e descontraidamente, observares, mais uma vez a imagem, que, tendes em construir e reconstruir vezes sem conta. Embora a imagem seja sempre diferente, e sempre a mais bela e bonita imagem mental que crias, não consegues parar de a reconstruir.

Aquela imagem, que cada vez que vês, te cega ainda mais. Mas tu não estás preocupado com isso, porque neste momento, como nos outros tantos, em que te sentas a pensar na tua alma gémea, não dás pelos teus sentimentos a fecharem-se e a perderem-se dentro de ti mesmo. Tal como também, sempre que fitas aquela imagem, não dás pelos teus olhos a fecharem-se cada vez mais, até que acabas, como sempre, por adormecer.

Memórias e Lembranças

Agora aqui sentado, nesta pequena, modesta, simples, e, embora custe a admitir e transmitir, aqui, neste espaço, reles secretária de mesa de quarto, consigo observar, na parede frontal, a mim, um pouco, ou melhor, parte de algo do que eu já vivi. Penso, e reflicto, sobre cada uma destas fotografias e postais, e tento, ou melhor, consigo, claramente, lembrar-me de cada uma delas, e das histórias por trás delas. São viagens, passagens, momentos, instantes, sorrisos, reflexões, e tantos outros sentimentos, que agora me custam a descrever e enumerar, que ficaram eternamente gravados numa imagem, e em alguns casos, em algumas palavras. Era capaz de escolher aleatoriamente, um dos postais, e saber, até certo ponto, o porquê dele agora me pertencer, e o porquê de eu o ter aqui comigo. Tal como poderia escolher, uma fotografia, e contar, ou descrever, a sua história e o seu momento. Há umas, que já lá foram há tantos anos, e que, por momentos, são capazes de trazer tantas saudades, de como era, de como cheirava, de como sentia, de como pensava, enfim, de como era ter aquela tenra idade. Outras, mais recentes, que me mostram aquilo que hoje sou, e me fazem pensar, que daqui a tempos, poderei ser ainda mais EU, ou seja, poderei ainda encontrar algo mais do que sou hoje, e certamente o farei. Isto são memórias, não todas, nem muitas, das que se vão arrecadando, mas simplesmente algumas, algumas mais importantes que outras, mas todas elas recordações, memórias, e ainda mais, lembranças. Agora, que penso nesta palavra, vejo claramente, que são Lembranças. Lembrança de que há pessoas que contam comigo, pessoas que me querem ver seguir, e prosseguir, na minha viagem, por outros caminhos, mais adiantados. Lembranças que há lugares que partilharam comigo, e que tal como esses lugares, partilharam algo comigo, também eu guardei algo, muito importante dentro de mim, sobre esses lugares e espaços. Lembranças, de que há algo, para além das minhas certas e inúmeras dúvidas, que há de vir, e que há e haverá sempre algo mais, a encontrar e a procurar, durante esta, curta, mas longa passagem, de mais um EU, neste já repleto mundo de “EUS”.